Índia recua navios de guerra

A Índia começou hoje a recuar seus navios de guerra das proximidades do Paquistão, no mar da Arábia. A ordem foi dada um dia depois de o governo ter anunciado que iria permitir aos aviões comerciais paquistaneses que voltassem a usar o espaço aéreo da Índia depois de uma proibição de seis meses."Embarcações da Frota Ocidental, que patrulham diferentes áreas do norte do mar da Arábia, foram chamados às suas bases conforme decisão do governo", anunciou o comandante da Marinha, Rahul Gupta.Ele não especificou quantos navios foram chamados, mas fazem parte do Comando Ocidental o único porta-aviões da Índia, vários submarinos, destróiers e fragatas. Outros cinco navios que foram deslocados para a parte oriental do subcontinente também se afastariam do Paquistão, mas permaneceriam por enquanto na costa ocidental. Os navios foram mobilizados depois de um ataque extremista em 14 de maio contra uma base militar indiana no estado de Jammu-Caxemira, que deixou 34 mortos.As iniciativas da Índia são um pequeno recuo da ameaça de guerra vivida entre os dois rivais desde dezembro, depois de um ataque de militantes contra o Parlamento indiano em Nova Délhi ter sido promovido por grupos guerrilheiros islâmicos baseados no Paquistão.O Paquistão negou participação e anunciou uma repressão aos grupos militantes. Mas laços diplomáticos, comerciais e de transportes foram rompidos. Para agravar a situação, os dois países concentraram um milhão de soldados ao longo da fronteira de 2.900 quilômetros de extensão.Bombardeios e trocas de tiros com armas leves persistiram hoje na disputada fronteira da Caxemira. Pelo menos sete pessoas morreram. Grupos militantes no território paquistanês prometeram continuar com a insurgência na parte controlada pela Índia.O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald H. Rumsfeld, chegou ao Sul da Ásia demonstrando um certo otimismo por crer que os dois vizinhos detentores de armas nucleares poderão evitar mais uma guerra pela Caxemira. "Não está piorando. E isto é bom", disse Rumsfeld, após visitar tropas norte-americanas estacionadas no Golfo Pérsico em seu caminho a Nova Délhi. Mais tarde, entretanto, ele comentou que informações obtidas pelo serviço secreto demonstravam não ter havido praticamente nenhuma melhora no impasse militar. Ele não entrou em detalhes sobre as informações.Rumsfeld disse ter idéias concretas sobre "uma série de coisas" que poderiam ajudar a aliviar ainda mais a tensão, mas ele não as explicou. "Não temos apenas uma proposta, nem sou eu um mediador, como tal", afirmou.O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse em Washington que houve um alívio na tensão, "mas enquanto houver concentração de tropas e as pessoas ainda forem hostis umas às outras, sempre haverá perigo".A visita de Rumsfeld faz parte de um esforço diplomático internacional com o objetivo de reduzir a tensão que poderia levar à quarta guerra entre a Índia e Paquistão desde que ambos se tornaram independentes da Grã-Bretanha, em 1947.A principal disputa no conflito envolve a dividida região da Caxemira, onde militantes islâmicos travam há 12 anos uma luta pela independência da parte da província himalaia controlada pela Índia - a única indiana de maioria muçulmana - ou sua unificação com o islâmico Paquistão. A insurgência já cobrou a vida de pelo menos 60 mil pessoas. Os dois países reivindicam toda a província."Estamos esperando passos autênticos do lado indiano, não passos periféricos e cosméticos", afirmou hoje o presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, em visita aos Emirados Árabes Unidos. "Os passos autênticos, já os apresentei, são o início do diálogo sobre a disputa Caxemira, e todas as outras questões", explicou.O porta-voz do Ministério do Exterior da Índia, Nirupama Rao, respondeu: "Acredito que o governo paquistanês deveria reconhecer a importância dessas ações e o fato de que tratam-se de gestos substanciais."O governo da Índia tem se recusado a retomar o diálogo até que tenha garantias de que militantes baseados no Paquistão não estejam mais cruzando a Linha de Controle, que divide a Caxemira, para promoverem atos terroristas. A Índia acusa o Paquistão de financiar e treinar os militantes.Os esforços diplomáticos internacionais tiveram início com a garantia de Musharraf - apresentada por intermédio de um enviado dos EUA - de que havia ordenado a suas forças que impedissem as infiltrações.Entretanto, no Paquistão, dezenas de clérigos pró-Taleban, generais reformados e grupos militantes proscritos prometeram hoje desafiar a promessa de Musharraf de conter as infiltrações. Eles enviaram via fax um comunicado a ele exigindo o fim da cooperação de Islamabad com Washington em sua guerra contra o terrorismo no vizinho Afeganistão."A jihad (guerra santa) vai continuar na Caxemira", disse o general da reserva Mirza Aslam Beg, comandante do Exército do Paquistão em 1989, quando militantes iniciaram sua guerra de guerrilha na Caxemira indiana.Rumsfeld planeja reunir-se com o primeiro-ministro indiano, Atal Bihari Vajpayee, amanhã em Nova Délhi. Na quinta-feira, ele se encontrará com líderes paquistaneses em Islamabad.

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