Índia sente as dores paquistanesas

Após atentado contra Benazir, Nova Délhi deixa de lado a rivalidade e troca gentilezas com o país vizinho

Somini Sengupta, The New York Times, Calcutá, Índia, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 00h00

Quando o Paquistão mergulhou em novos tumultos sangrentos na semana retrasada, uma declaração contundente chegou da Índia, sua vizinha e rival. No dia 19, o Ministério das Relações Exteriores da Índia emitiu um comunicado de três linhas descrevendo uma conversa entre o chanceler Pranab Mukherjee e a ex-primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto, cujo comboio foi atacado em Karachi, no dia 18, quando ela retornava do exílio.Mukherjee, dizia a declaração, ''''conversou com Benazir Bhutto esta noite. Ele expressou seu pesar pelo ato covarde e sua satisfação por ela ter escapado ilesa. Também expressou suas condolências pelos que perderam suas vidas''''.Em vez da habitual declaração de condolências depois de incidentes de violência, a declaração mencionou Benazir com simpatia. Em outra época, os líderes indianos evitariam esse tipo de manifestação, temendo acusações de interferência na política paquistanesa.''''As mensagens sugeriram um reconhecimento implícito da autenticidade das credenciais de Benazir'''', disse Salman Haidar, um diplomata indiano aposentado. ''''É um sinal da disposição de negociar com ela, quando surgir a ocasião. É algo incomum.''''Foi também um reconhecimento implícito de que as forças que estão agindo contra Benazir Bhutto no Paquistão são as mesmas que ameaçam os indianos: extremistas religiosos, que não querem a paz com a Índia nem com o Afeganistão (um aliado da Índia) e rejeitam uma solução pacífica para a Caxemira.Poucos países são tão diretamente afetados pela instabilidade no Paquistão quanto a Índia. Os destinos de ambos estão ligados desde seus sangrentos nascimentos. Os dois países passaram os últimos 60 anos treinando forças militares para a guerra e preparando-se para lutar um contra o outro. Inúmeras vezes eles trocaram acusações de responsabilidade por violência e insurreições em seus territórios. E agiram de maneira descontínua, em geral sem uma verdadeira confiança, para negociar a paz.As relações entre eles estão hoje relativamente calmas. No entanto, nos últimos meses, quando o líder do Paquistão, o general Pervez Musharraf, passou a ser pressionado internamente, as esperanças de acordos de paz foram deixadas de lado.O apoio consistente de Washington a Musharraf tem sido o único ponto sobre o qual a Índia se permite discordar dos EUA. Na era pós-11 de Setembro, Nova Délhi tem acatado relatórios que mostram o Paquistão como um refúgio de grupos militantes para indicar sua própria vulnerabilidade a grupos terroristas instalados no país vizinho.O chanceler indiano disse também que o primeiro-ministro Manmohan Singh transmitiu sua ''''preocupação e simpatia pessoal'''' a Benazir e planejava enviar uma carta a Musharraf. No passado, Benazir foi objeto de críticas da Índia, assim como virtualmente todos os demais líderes paquistaneses.MUDANÇAAtualmente, vozes de fora do governo indiano não se mostram relutantes em julgar a falta de democracia no Paquistão ou de considerar Benazir como responsável por isso. A imprensa indiana foi dominada pelo drama de seu retorno, pendente durante muitas semanas, um reflexo da importância que cada país tem para o sentimento de existência do outro.O jornal The Times of India, em editorial no último domingo, enumerou as razões pelas quais os extremistas islâmicos desejariam atingir Benazir: ela é uma mulher, adotou uma posição dura contra militantes que operam na fronteira do Paquistão com o Afeganistão e, ultimamente, disse o jornal, ''''tem feito manifestações moderadas sobre a Índia.''''O editorial prossegue, criticando os EUA por apoiarem uma aliança insustentável entre Benazir e Musharraf, em vez de incentivar um campo de jogo igual para todos os principais políticos paquistaneses. ''''Em vez de promover um candidato ou outro, os EUA e a comunidade internacional deveriam trabalhar para facilitar uma transição transparente para a democracia no Paquistão'''', disse o jornal.ACORDOJá o Indian Express foi mais cruel em seu editorial, criticando Benazir por atuar ''''em conluio com um ditador''''. Ele a acusou de fazer um acordo com Musharraf para colocar no ostracismo outro ex-primeiro-ministro, Nawaz Sharif, que foi deportado sob ameaça de prisão em setembro, quando também tentava voltar do exílio para o Paquistão.''''Em política, é preciso agir com o que se tem, como percebemos com freqüência na democracia indiana'''', disse o jornal. ''''O Paquistão deveria poder escolher entre o que tem - Benazir e Sharif. Um deles foi sumariamente retirado da equação e o outro é cúmplice dessa decisão. Benazir voltou para casa levando o pior presente possível para seus concidadãos.''''TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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