Índia tem reality show casamenteiro

Programa exibe candidatos e dá às famílias mais condições de escolher os parceiros ideais para seus filhos

Rama Lakshmi, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2009 | 00h00

Em um vídeo de dois minutos que a TV exibiu no mês passado, Amit Daruka, de 29 anos, e seus pais faziam a lista dos atributos da mulher ideal - ela deveria ser alta, de pele clara, respeitar os mais velhos, ser da mesma etnia e horóscopo de Daruka e estar disposta a trabalhar no negócio de roupas da família. O vídeo mostrou também Daruka jantando em casa com os pais, orando com a mãe e divertindo-se com os amigos. Os anfitriões do programa conversaram com a família e pediram às espectadoras interessadas que enviassem mensagens de texto. Bem-vindos à forma mais recente da tradição milenar do casamento arranjado na Índia.Informações sobre possíveis candidatas já não são trazidas por tias da família. Nas duas últimas décadas, à medida que as comunidades indianas se fragmentavam e as famílias se dispersavam, as pessoas dispostas a casar passaram a usar outros meios, como anúncios em jornal, agências de casamento e internet. Agora, a florescente indústria da televisão da Índia pretende assumir o papel de casamenteira, ampliando o universo de casamentos arranjados com três reality shows."Meus pais procuram uma mulher para mim há quatro anos", disse Daruka. "A TV é um veículo transparente. Você tem como avaliar a compatibilidade da pessoa observando sua linguagem corporal, o tom da voz e a casa onde mora."A Star TV, de propriedade de Rupert Murdoch, realizou pesquisas de audiência que revelaram duas importantes questões que irritam as famílias indianas: a educação dos filhos e o casamento das filhas. O canal, que até pouco tempo exibia novelas em que predominavam brigas de família e intrigas entre mães e noras, decidiu ajudar os telespectadores a arranjar casamentos. No mês passado, lançou Star Vivaah, ou "Casamento na Star".GRANDE SALTO"Nosso programa é o YouTube dos casamentos arranjados", disse Rasika Tyagi, vice-presidente de programação da emissora, que define o show como "um grande salto em comparação às quatro linhas de um classificado de jornal". No Star Vivaah, disse ela, os telespectadores podem ver as casas dos possíveis cônjuges - às vezes leva meses para as famílias trocarem fotos dos possíveis genros e noras. "Reduzimos a duração do processo e fazemos com que eles tenham a possibilidade de tomar a decisão."Os criadores do show resolveram apresentar, nos primeiros episódios, apenas engenheiros, médicos e administradores de empresas para que os espectadores não o vissem como uma plataforma para pessoas fracassadas.O maior serviço prestado pelo programa é fazer as perguntas que uma jovem e sua família têm medo de fazer. "O mercado dos casamentos arranjados, na maioria das vezes, desfavorece a família da mulher, que se encontra sempre em posição inferior. A família teme que o jovem possa desistir se os parentes fizerem perguntas delicadas", disse Rasika. "Fazemos todas as perguntas que ela gostaria de fazer, mas não tem coragem, sobre emprego, renda e o número de filhos que o candidato quer."O show preocupa-se em não conturbar a situação social, invocando todos os clichês de casamentos arranjados, com exceção do dote, prática proibida, mas sempre dominante. Os homens querem mulheres "simples", que vistam sari e sejam capazes de avaliar as exigências da carreira e das famílias. Querem uma mulher que siga a moda, mas também que observe as tradições culturais. As mulheres aparecem trabalhando em escritórios e dirigindo carros, mas também lavando o arroz e revelando detalhes do horóscopo, da casta e do clã.Recentemente, a equipe da Star TV entrevistou a família de Rachna Dalal, jovem de 25 anos que pilota jatos, ganha US$ 4,5 mil mensais a bordo de um Boeing 737 e mora sozinha em Nova Délhi. "Quero casar com um piloto capaz de entender meu horário de trabalho", disse Rachna. "Além disso, não quero morar com a família e nem toleraria que alguém perguntasse pelo dote."O irmão pintou uma imagem mais modesta dela. "Ela pode ser uma boa mulher indiana", disse Manoj Dalal. "Faz todo o serviço doméstico, cozinha bem e respeita os mais velhos. E queremos um homem da nossa casta para que seus parentes não boicotem o casamento."Para retratar Rachna seguindo a carreira, a tradição e a moderna vida urbana, a equipe da TV a mostrou em seu uniforme de piloto, exercitando-se na esteira, dirigindo e tendo aulas de salsa, mas também trajando uma roupa indiana tradicional, preparando o chá e servindo-o com biscoitos para a família.O canal enfrenta apenas um problema com seu novo show: muitas vezes, parceiros perfeitos nos casamentos arranjados só tornam o programa de TV uma chateação. "Queremos prestar um serviço de utilidade, mas quanto mais perfeitos são os casais, menos o show consegue entreter", disse Rasika. "Preciso descobrir se meu emprego é bancar a casamenteira ou divertir as pessoas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.