Dhiraj Singh / Bloomberg
Dhiraj Singh / Bloomberg

Índia testa ideias contra fake news e linchamentos

Artistas de rua e ‘desfazedores de boatos’ são contratados para conter onda de violência

Annie Gowen / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 05h00

A propagação de fake news é uma praga global, mas vem sendo particularmente perniciosa na Índia, onde legiões de usuários de smartphones ainda inexperientes fazem circular bilhões de mensagens por dia no WhatsApp, plataforma que tem no país seu maior mercado, com 200 milhões de usuários. 

Cinco pessoas foram mortas por uma turba no dia 1.º na Índia após rumores espalhados nas redes sociais de que elas eram traficantes de crianças. Foi o caso mais recente de uma crescente onda de linchamentos ligados a mensagens falsas divulgadas nas redes sociais que vêm deixando as autoridades aturdidas.

Mais de uma dezena de pessoas já foram mortas na Índia em episódios semelhantes desde maio. A violência é alimentada principalmente por mensagens enviadas pelo WhatsApp. Os casos envolvem sobretudo moradores de vilarejos, muitos deles provavelmente usando smartphones pela primeira vez. Inflamadas por falsos alertas sobre quadrilhas de traficantes de órgãos, pessoas comuns passam a atacar inocentes, espancando-os até a morte.

Governos de todo o mundo estudam leis e outros meios para combater as chamadas fake news desde que a Rússia interferiu pela internet nas eleições presidenciais americanas de 2016, e também diante do aumento dos discursos de ódio. Tais reações levantam preocupações óbvias sobre possíveis reflexos no direito à livre expressão.

Enquanto o governo indiano avalia o que fazer, autoridades do interior do país têm de lidar com as fake news divulgando alertas e empregando velhos métodos, como a contratação de artistas de rua e “desfazedores de rumores” para visitar vilarejos e advertir a população do perigo. Numa ironia cruel, um dos próprios “desfazedores de rumores” foi linchado no Estado de Tripura, leste da Índia. 

“Procuramos combater a desinformação com campanhas agressivas nas redes sociais, WhatsApp e canais locais de TV”, disse M. Ramkumar, superintendente de polícia em Dhule, distrito do oeste da Índia. Foi lá que cinco mendigos nômades foram surrados até a morte por moradores que achavam que se tratava de sequestradores de crianças. “Nossa mensagem básica é que todos esses rumores são falsos e a população não deve ficar refém deles”, disse Ramkumar.

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Controle. Recentemente, funcionários do WhatsApp – de propriedade do Facebook e com sede em Menlo Park, na Califórnia – introduziram na plataforma uma nova função que permite a líderes de grupos controlar membros que postem mensagens. A empresa também testa um projeto para classificar mensagens enviadas. Na índia, a proximidade das eleições gerais de 2019 contribui para a expansão do WhatsApp. Partidos políticos estão recrutando, aos milhares, “guerreiros do WhatsApp” – os quais, em alguns casos, também divulgam conteúdo incendiário.

“O WhatsApp trabalha para deixar claro quando os usuários recebem informações dirigidas e para reduzir o alastramento de mensagens indesejadas em grupos de chats privados”, disse um porta-voz do aplicativo, Carl Woog. 

“O próprio WhatsApp é usado para combater a desinformação, entre outros, pela polícia indiana, agências de notícias e grupos de checadores de fatos. Trabalhamos ainda com várias organizações empenhadas em ensinar as pessoas a detectarem notícias falsas circulando online.”

Diferentemente do Facebook – no qual usuários podem ser rastreados e desativados por postar conteúdos que violem seus padrões –, o WhatsApp é mais difícil de ser monitorado porque as mensagens entre usuários são criptografadas. Mesmo assim, dizem críticos, poderia e deveria ser feito mais no caso da Índia, um país em que centenas de milhares de usuários estão entrando online pela primeira vez. 

“A polícia indiana está sempre em desvantagem porque, além de não ter técnicos em número suficiente, o volume do fluxo do WhatsApp está tornando cada vez mais difícil lidar com ele”, disse Nikhil Pahwa, especialista em tecnologia da informação. “A própria plataforma precisa evoluir.”

Pahwa argumenta que as mensagens enviadas por meio do WhatsApp deveriam conter o número de origem, o que tornaria mais fácil combater o mau uso e desencorajar usuários de criar conteúdos prejudiciais. 

O Google anunciou que está ampliando um programa já existente para ajudar jornalistas da Índia a treinar 8 mil repórteres, em sete línguas, em detecção e exposição de fake news criadas “no ecossistema específico de desinformação” do país, segundo Irene Jay Liu, chefe do Google New Lab para a região Ásia-Pacífico.

As tentativas do governo indiano de combater o problema enfrentam outras dificuldades. Em abril, uma circular do Ministério da Informação e Difusão propondo duras penalidades para jornalistas que postem fake news foi retirada em menos de 24 horas em consequência de protestos generalizados.

Ainda no Estado de Tripura, três pessoas foram linchadas na semana retrasada numa violenta manifestação originada pela morte de um garoto de 11 anos ocorrida em 26 de junho.  Rumores no WhatsApp de que o menino havia sido vítima de traficantes de órgãos foram reforçados por Ratan Lal Nath, um líder do partido governista Bharatiya Jatana. Ele apareceu na casa do garoto para informar que um do rins do garoto fora extraído por traficantes de órgãos, como mostrava um vídeo, falso, que ele exibiu. Quando a polícia conseguiu desmentir a história, o mal já estava feito. 

O Departamento de Informação e Assuntos Culturais do Estado contratou “desfazedores de rumores” para tentar controlar a violência subsequente, entre eles Sukanta Chakaraborty, de 33 anos, músico percussionista e dotado de voz possante.

Sukanta ganhava US$ 8 por dia para viajar de vilarejo em vilarejo numa van equipada com alto-falante, alertando a população para os perigos das fake news. Ele e dois colegas de trabalho foram encurralados no dia 28 por uma turba, em uma movimentada feira de rua, e mortos a tijoladas e golpes de bambu. “De nada adiantou ele implorar e argumentar que estava só fazendo seu trabalho – ninguém quis ouvir”, disse a viúva de Sukanta, Tanushri Barua. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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