EFE/ Alessandro Di Meo
EFE/ Alessandro Di Meo

Indicação de premiê pró-UE agrava crise e aproxima Itália de nova eleição

O presidente italiano, Sergio Mattarella, nomeou Carlo Cottarelli, ex-dirigente do FMI, para governar o país, após vetar escolha de eurocético para ministro da Economia; maior desafio do tecnocrata é obter o voto de confiança do Parlamento

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 06h00

O presidente da Itália, Sergio Mattarella, indicou nesta segunda-feira, 28, Carlo Cottarelli, ex-dirigente do Fundo Monetário Internacional (FMI), como futuro primeiro-ministro do país. O economista substituirá Giuseppe Conte, jurista e professor universitário indicado ao posto na semana passada, que renunciou no fim de semana após uma tentativa frustrada de liderar um governo de coalizão entre o Movimento 5 Estrelas (M5S, populista) e a Liga (extrema direita). 

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Cottarelli, de perfil tecnocrata, deve ficar no poder só até a realização de novas eleições. A nomeação de Cottarelli é um novo capítulo da crise política italiana iniciada com as eleições legislativas de março. Desde então, os partidos se sucedem na tentativa de formar uma maioria estreita no Parlamento, sem sucesso. Na semana passada, Conte, acusado de mentir em seu CV, chegou a aceitar a missão de formar uma coalizão entre o M5S e a Liga. A tentativa durou três dias.

A decisão de Conte de nomear para o cargo estratégico de ministro da Economia o economista eurocético Paolo Savona, crítico contumaz da moeda única europeia e da Alemanha, levou Mattarella a usar seus poderes constitucionais para vetar o governo. Desautorizado em uma decisão inédita por parte de um chefe de Estado, Conte renunciou sem se submeter ao voto de confiança do Parlamento. 

“Não posso aceitar que um responsável tido como partidário de uma linha pudesse provocar provavelmente, talvez até inevitavelmente, a saída da Itália da zona do euro”, justificou Mattarella, ao anunciar a escolha de Cottarelli.

O presidente alegou ainda que o plano de governo da coalizão M5S e Liga era infundado, e não trazia estimativas realistas de financiamento. Economistas italianos previam que as medidas a serem adotadas pelo governo de Conte, como baixa generalizada de impostos, criação de uma renda mínima universal de € 780 e a redução da idade mínima de aposentadoria, geraria um buraco no orçamento avaliado entre € 100 bilhões e € 150 bilhões por ano. Isso agravaria a situação do país, que já tem a segunda maior dívida da União Europeia, atrás apenas da Grécia, com 132% do PIB.

O veto de Mattarella foi criticado pelos dois partidos que liderariam a coalizão, já que Cottarelli deverá formar um “governo técnico”, sem nomeações ligadas a partidos políticos e, portanto, distante do plano de governo que M5S e Liga vinham preparando. Pesquisas de opinião mostraram que até 60% dos italianos também não aprovaram a atitude do presidente.

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Cottareli é conhecido na Itália como “Senhor Tesoura” após sua passagem pelo FMI. Com 64 anos, foi uma espécie de ministro da desburocratização do governo de Matteo Renzi, do Partido Democrático, sem grande sucesso. Seu maior desafio será obter o voto de confiança do Parlamento, como outro tecnocrata, Mario Monti, que governou entre 2011 e 2013, conseguiu fazer no auge da crise econômica europeia, mesmo sem passar pelo crivo das urnas.

Se não for aprovado pelo Parlamento, Cottareli poderá apenas gerenciar os assuntos correntes do Estado, sem realizar reformas, à espera das eleições, que devem ser marcadas para setembro.

POSSÍVEIS CENÁRIOS

Um governo Cottarelli

O primeiro passo será a criação de um governo técnico dirigido por Carlo Cottarelli. Considerando-se que não deve negociar com os partidos políticos, Cottarelli tem de formar rapidamente seu governo, prestar juramento e, depois, pedir o voto de confiança do Parlamento.

 

Rejeição do Parlamento

É muito improvável que Cottarelli obtenha a confiança do Parlamento, dominado por membros do Movimento 5 Estrelas (M5S, antissistema) e pela Liga (extrema direita), que são contra tudo o que ele representa. Portanto, o governo se encarregará apenas da gestão dos assuntos correntes, enquanto se espera por novas eleições, cuja data será fixada pelo presidente da república. Cottarelli acrescentou que se não conquistar o voto de confiança do Parlamento convocará novas eleições para depois de agosto.

 

Equilíbrio de poder

Ainda não é certo que a coalizão de direita vá sobreviver à crise atual. Berlusconi deu sinal verde para as negociações M5S/Liga, mas o programa comum não lhe agradou. Defensor de uma ancoragem europeia da Itália, ele ficou ao lado de Mattarella.

 

Com que lei?

A paralisia na Itália é fruto, entre outras coisas, da lei eleitoral, que ainda deixa grande parte para uma votação proporcional em um cenário político dividido em três campos: direita, antissistema e centro-esquerda. “Se, agora, voltarmos a votar com a mesma lei eleitoral, teremos as mesmas dificuldades que neste momento”, advertiu a presidente do Senado, Maria Elisabetta Alberti Caselatti.

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