Kyodo News via AP
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Índices de covid no Japão caem apesar da Ômicron, e ninguém sabe exatamente por quê

Ao longo da pandemia de coronavírus, o país apresentou índices de infecções e de mortes muito mais baixos do que os ocidentais

Michelle Ye Hee Lee e Julia Mio Inuma / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 20h00

TÓQUIO - Enquanto os casos de covid-19 causados pela variante Ômicron do coronavírus aumentam em todo o mundo, os índices gerais de infeções e mortes decorrentes da pandemia têm despencado no Japão. E ninguém parece saber exatamente por quê.

Isso tem sido visto como uma caçada por um potencial “fator X”, como genética, por exemplo, capaz de explicar essa tendência e informar o Japão a respeito de como lidar com a próxima onda. Ainda que a variante Ômicron, altamente transmissível, já tenha aparecido no país e especialistas desconfiem que já ocorra alguma transmissão comunitária da nova cepa, o índice geral de novas infecções pelo coronavírus e das mortes relacionadas à covid tem permanecido baixo no Japão.

“Honestamente, não sabemos a razão exata por trás da súbita queda nas mortes por covid no Japão”, afirmou Taro Yamamoto, professor de saúde global no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de Nagasaki.

Ao longo da pandemia de coronavírus, o Japão apresentou índices de infecções e mortes muito mais baixos do que países ocidentais, apesar de ter havido uma alta grave no verão, que lotou os hospitais do país. 

Surtos mais brandos — em comparação às devastadoras ondas de coronavírus na Europa e nas Américas — ocorreram em vários países asiáticos e foram com frequências atribuídas a populações acostumadas com medidas sanitárias requeridas em experiências anteriores com doenças respiratórias, como nas epidemias de sars e mers. Cientistas também buscaram na genética, nas dietas e em outros fatores explicações para países do Leste Asiático, como Japão e Coreia do Sul, terem sido poupados dos altos índices de mortes registrados em outras partes do mundo. 

No Japão, os cientistas também examinaram fatores como clima, padrões cíclicos na disseminação do vírus e potenciais exposições anteriores a variantes mais brandas co coronavírus que possam ter ter levado a menores índices de infecções e mortes. Especialistas identificaram características genéticas entre os japoneses que possivelmente ocasionaram respostas mais fortes de seu sistema imunológico ao coronavírus, mas afirmaram que é preciso mais pesquisa para obter conclusões definitivas. 

O Japão tem a maioria de sua população completamente vacinada e o uso de máscaras é generalizado no país, o que pode explicar os atuais baixos índices da pandemia por lá. Mas isso também ocorre na Coreia do Sul, onde as autoridades estão voltando atrás em planos de reabertura por causa de uma alta nas infecções e números recordes de casos graves. E o Japão mal começou a aplicar as doses de reforço das vacinas, colocando-se atrás de outros países da região, incluindo a Coreia do Sul, em relação às doses-extra.  

“Obviamente que vacinação, uso de máscaras e distanciamento social são fatores importantes, mas que por si só não explicam isso, especialmente em comparação à situação na Coreia do Sul”, afirmou Yamamoto. “Não está claro se existe ou não um 'fator X’ entre japoneses ou povos do Leste Asiático, mas se determinarmos isso, esperamos que nos ajude a entender e controlar o vírus.” 

No mês passado, o número diário de novos casos de covid no Japão oscilou entre cerca de 60 e menos de 200, em um país de 127 milhões de habitantes. Menos de cinco mortes pela doença foram registradas na maioria dos dias desde o começo de novembro.  

Esses números engendram uma ressalva, pois é possível que haja uma subnotificação em relação aos índices reais da pandemia por causa da falta de testagens generalizadas, rastreamento sistêmico de contatos, passaportes de vacinação e atrasos em registros de mortes por parte das municipalidades.

Falta de testagens e prevalência de casos assintomáticos significam que o governo provavelmente registrou entre um quarto e um décimo do número verdadeiro de infecções até recentemente, quando mais opções de testes de detecção de coronavírus se tornaram disponíveis, de acordo com Michinori Kohara, pesquisador do Instituto Metropolitano de Ciências Médicas de Tóquio que liderou um estudo publicado no mês passado a respeito de casos assintomáticos de covid e subnotificação da doença. 

Mas mesmo levando-se em conta a subnotificação, os números de casos e mortes representam uma pequena fração em relação aos índices da pandemia nos Estados Unidos em muitos países europeus. 

Por causa dessas limitações em detectar o número verdadeiro de casos no país, especialistas têm atentado para a pressão sobre os hospitais para aferir como seu sistema de saúde está lidando com a situação e analisado se existe ou não um número significativo de casos subnotificados de covid.   

Até agora, afirmam eles, a situação melhorou imensamente desde o pico do verão, quando os hospitais estavam tão lotados que o governo pediu que os pacientes se tratassem em casa, pois não havia leitos suficientes para acomodá-los. Casos graves de covid estão agora sob controle, afirmam especialistas.  / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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