Eduardo Munoz/Reuters
Eduardo Munoz/Reuters

Indiferença de eleitores marca crucial votação de amanhã no arrasado Haiti

Sem empolgação. Às voltas com os efeitos do terremoto de janeiro e de uma grave epidemia de cólera, haitianos não entraram no clima da eleição que deve apontar o primeiro presidente a receber a faixa de outro líder democraticamente eleito

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

As eleições no Haiti têm despertado pouca paixão entre seus habitantes. Os haitianos evitam discutir em quem votarão e assistem à propaganda política como se fosse programas de comédia. Não entraram no clima eleitoral, apesar de esta ser a primeira vez na história do país que um presidente democraticamente eleito passará a faixa para outro.

Na noite de quinta, um grupo de pessoas dava risadas diante de uma TV na calçada de uma área pobre de Porto Príncipe enquanto um dos presidenciáveis falava. Tentando superar a indiferença dos eleitores, os candidatos tentam chamar a atenção dos eleitores com uma colorida campanha na cidade, com cartazes que ajudam a cobrir os escombros do terremoto.

Jude Celestin, o preferido do presidente Rene Préval, é quem mais ocupa espaços, seguido de perto por Mirlande Manigat. Os dois são os maiores favoritos.

Os demais concorrentes não podem ser chamados de nanicos. Alguns têm condições de chegar ao segundo turno, já que nenhuma pesquisa realizada no país pode ser confiável. Na campanha, todos apelam a estratégias de campanha parecidas com as dos anos 80, como carros de som, cidadãos comuns com camisetas e alto-falantes.

No centro da cidade, um coro de jingles de campanha domina o já barulhento ambiente de Porto Príncipe. Um deles fala para votar no "careca" (Michel Martelly) na eleição presidencial.

Contra o machismo. A guerra maior se dá entre Celestin e Manigat. Muitas mulheres, como Casteli Françoise, dizem que votarão nela para tentar reduzir o machismo no Haiti, onde os índices de estupro são dos mais elevados do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. "Manigat sabe o que as mulheres querem e nos colocará no centro poder", disse.

Para reverter a onda pró-Manigat, Celistin adotou como slogan a frase "se vote egalite famn ak gason", que quer dizer para "vote para a igualdade entre homens e mulheres" em creole, língua oficial do Haiti. Desta forma, ele imagina que atrairá o voto feminino.

Os recursos dos candidatos condizem com a economia mais pobre das Américas. Campanha por Facebook ou Twitter, como nos Estados Unidos e no Brasil, praticamente inexiste, a não ser por alguns haitianos na diáspora que nem sequer podem votar. Na TV, os postulantes aos cargos de presidente, senador e deputado apenas falam, sem o uso de nenhum recurso tecnológico. O grosso da campanha haitiana ainda é no corpo a corpo, que se encerrou 48 antes da votação neste domingo.

O problema é que, apesar dos esforços dos candidatos, os haitianos não estão muito entusiasmados com a eleição.

Nas áreas mais pobres da cidade e mesmo no centro, os haitianos com quem o Estado conversou não se interessavam em falar dos candidatos. Parte não tinha a menor ideia sobre em quem votar. Outros usavam argumentos simples, como "recebi um panfleto dele".

Outra frase comum, em tom de piada, é o de que a pessoa acabará votando "em quem pagar mais" para ela.

Em uma escola, havia uma aglomeração de pessoas para buscar os documentos eleitorais e os apresentava orgulhosos.

Outros davam risada, ironizando os esforços dos engajados no processo eleitoral. "Não adiantará nada", é perda de tempo disse Ronal. Segundo Nicolas Jebon, "os políticos embolsam todo o dinheiro" dos haitianos.

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