Indiferença de milícias marca resgate

No local da queda do voo MH17 na Ucrânia, corpos não têm o cuidado adequado e acesso é controlado rigidamente por rebeldes

Andrei Netto, enviado especial / Gabrovo, Ucrânia, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2014 | 02h02

Apenas dois grupos de observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) trabalhavam no sábado em meio a dezenas de separatistas armados de fuzis, a um batalhão de jornalistas, a centenas de moradores da região e de curiosos e a quase três centenas de corpos. O cenário nos campos agrícolas da região de Grabovo, na Ucrânia, local em que o Boeing 777 da Malaysia Airlines caiu na quinta-feira é de horror.

Em um local onde vítimas jazem a céu aberto, o que mais chama a atenção é o autoritarismo e a indiferença aos cadáveres demonstrados pelos milicianos pró-Rússia, assim como a ausência de familiares dos mortos. Essas características transformaram o ponto do acidente em uma espécie de zoológico mórbido. Pessoas autorizadas pelos separatistas - todos, menos jornalistas - circulam quase livremente entre os corpos, que já começam a entrar em estado de decomposição sem que tenham direito a uma câmara fria.

A situação no leste da Ucrânia é chocante. Acusados de serem os autores do disparo de míssil que derrubou o Boeing 777 na quinta-feira, milicianos pró-Rússia não demonstram remorso. Pelo contrário: circulam dando demonstrações ostensivas de autoridade pela rua que separa os campos de milho nos quais caíram parte das peças da aeronave e os cadáveres.

Com roupas militares, em geral com rostos cobertos por capuzes e máscaras e fuzis AK-47 nas mãos, milicianos autorizam ou barram a chegada de qualquer pessoa ao local. Foi assim com agentes da OSCE e continua sendo com bombeiros, polícia ou serviço médico legal ucranianos, que não podem se aproximar da região por causa do conflito armado.

A proposta do governo da Ucrânia de usar as câmaras mortuárias de Kharkiv, a 80 quilômetros do local do acidente, e abrir na mesma cidade um centro de acolhimento de familiares não foi aceita pelos líderes separatistas pró-Rússia. O resultado é que muito pouco havia sido feito pelos corpos de vítimas e por seus familiares até o final da tarde de ontem, mais de 48 horas após a tragédia. Nenhum trabalho de identificação foi realizado até aqui e nem mesmo existe uma proteção dos cadáveres contra a intempérie e contra animais predadores.

No local do acidente, milicianos - que não aceitam gravar entrevistas - alegam que a atitude é para preservar a cena do acidente e permitir a investigação. Mas o governo regional de Donetsk denunciou ontem que 36 corpos de vítimas foram carregados em caminhões, sem nenhum cuidado com a preservação de provas. Até o final da manhã de ontem, 27 corpos haviam sido levados ao mortuário de Donetsk e outros foram empilhados e recobertos com sacos plásticos pretos no próprio sítio do acidente. A maioria ainda continuava no chão, entre os destroços.

O trabalho de resgate das vítimas é feito por pequenas equipes de civis amadores, que fazem a coleta de pedaços de corpos sem nenhum cuidado especial com a preservação da cena do crime, constantemente pisoteada. Ontem à tarde, o Estado presenciou um dos voluntários, que não portava máscara, vestimentas ou equipamentos de proteção individual, sofrendo de náuseas e vômitos após manipular um corpo.

Enquanto o cuidado com os cadáveres é nulo, a atenção dada a objetos e a pertences pessoais - objetos, computadores, eletrônicos - impressiona. Esses pertences ou foram reunidos em montes, ou desapareceram nas últimas horas.

De acordo com o governo da Ucrânia, essa postura é deliberada. Os milicianos estariam ganhando tempo para eliminar r indícios que possa levar à explicação sobre a queda do avião.

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