Cristina VEGA / AFP
Cristina VEGA / AFP

Indígenas lideram greve geral contra Lenín Moreno no Equador

Em meio a protestos, oposição pede renúncia do presidente, que transferiu sede do governo de Quito para Guayaquil

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2019 | 12h57
Atualizado 10 de outubro de 2019 | 15h45

QUITO - Uma greve geral convocada por grupos indígenas que se opõem ao presidente do Equador, Lenín Moreno, provocou o bloqueio de estradas, paralisações no transporte público e o fechamento do comércio em Quito e outras cidades do país nesta quarta-feira, 9. 

A Confederação Nacional Indígena do Equador (Conaie) reuniu 6 mil indígenas nos arredores da capital equatoriana para pedir a renúncia de Moreno. Eles marcharam de pontos da Amazônia e da Cordilheira dos Andes em protesto contra as reformas econômicas de Moreno, que levaram ao aumento de 123% no preço dos combustíveis

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Em Guayaquil, para onde transferiu a sede do governo depois de decretar estado de exceção em consequência dos protestos, Moreno descartou renunciar e revogar as medidas, anunciadas após um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor de US$ 4,2 bilhões.

O presidente também rejeitou diálogo com os grupos indígenas. “Não tenho motivos para renunciar pois estou tomando as decisões corretas”, disse Moreno.

O mandatário retornou nesta quarta a Quito para, segundo a ministra de governo, María Paula Romo, supervisionar a situação “diante do risco de incidentes”. O vice-presidente, Otto Sonnenholzner, que permaneceu em Guayaquil, afirmou que, com o apoio das Forças Armadas, da Polícia Nacional e dos municípios, estava conseguindo “conter” a intenção de “desestabilizar” o governo. Ele ameaçou prender e deportar estrangeiros que tentam desestabilizar o presidente.

Sem entrar em detalhes, Paula Romo disse que continuam “as mesas de diálogo” instaladas em Quito com as organizações indígenas, tendo a ONU e as universidades como mediadoras. Na terça-feira, o governo se mostrou disposto a aceitar a mediação da ONU e da Igreja para resolver a crise no país.

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Revolta contra acordo com o FMI

Nesta manhã, os militares, que apoiam Moreno, pediram que a greve ocorra sem violência. Nos últimos dias, ao menos 700 pessoas foram presas nos protestos contra o presidente, que assumiu o governo em 2017 e se distanciou do padrinho político, o ex-presidente Rafael Correa, ao adotar uma política econômica pró-mercado. 

A Conaie acusou o governo de atuar como uma ditadura militar ao reprimir os protestos. na noite de ontem, o presidente decretou toque de recolher em alguns bairros de Quito que abrigam prédios públicos, depois de um grupo de manifestantes ter invadido a Assembleia Nacional. 

“O governo tem dado dinheiro aos bancos e punido os equatorianos mais pobres”, disse o presidente da Frente Unida dos Trabalhadores  Messias Tatamuez, um dos sindicatos que apoia a paralisação. “Pedimos que todos que sejam contra o FMI, o responsável pela crise, que se juntem à greve.”

Indígenas já derrubaram três presidentes do Equador

Historicamente, os grupos indígenas têm um papel de protagonistas na política equatoriana. Durante a instabilidade dos anos  90 e 2000, a Conaie apoiou a destituição dos presidentes Jamil Mahuad, Abdalá Bucaram e Lucio Gutiérrez. Na época, o Equador teve oito presidentes em dez anos. 

Com a chegada de Correa ao poder, em 2007, o país viveu um período de estabilidade econômica e política graças ao boom das commodities e políticas sociais do presidente, que reformou a Constituição para se reeleger. 

No começo do mandato, Correa se aproximou de lideranças indígenas. Adotou símbolos quéchuas – etnia da maioria dos indígenas do país – em seus discursos e aparições públicas  e aprovou leis de interesse da comunidade.

A partir do segundo mandato, a exploração mineral da Amazônia equatoriana abriu uma cisão entre Correa e a Conaie. Uma marcha similar à atual foi convocada contra o presidente, em 2015.

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Em 2017, no entanto, Correa surpreendeu a todos ao desistir da reeleição e indicar Moreno, que foi seu vice-presidente. No poder, ambos romperam e Moreno se aproximou da oposição.

Hoje, o presidente acusa Correa de tentar derrubá-lo. O ex-presidente chama o antigo pupilo de traidor. / AFP, REUTERS, EFE e AP

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