AFP PHOTO / Mauro Pimentel
AFP PHOTO / Mauro Pimentel

Indígenas venezuelanos enfrentam dificuldades ao buscar refúgio no Brasil

Centenas de membros da várias etnias, principalmente da warao - a segunda maior da Venezuela -, se refugiaram em cidades de Roraima nos últimos três anos em razão do agravamento da crise política, econômica e social em seu país de origem

O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 10h24

PACARAIMA, BRASIL - Centenas de indígenas venezuelanos, fungindo da fome e do abandono, vieram para o Brasil nos últimos anos. Em abrigos improvisados, a situação até melhorou para alguns, mas o aumento da migração e a falta de planos causam incertezas.

Entidade da ONU pede que governos abram suas fronteiras para venezuelanos

Em Pacaraima, cidade limítrofe brasileira, a Casa de Passagem, com capacidade para 250 pessoas, serve de refúgio para cerca de 520 indígenas, em sua maioria da etnia warao, oriundos do delta do Orinoco, no norte da Venezuela.

Ninguém tem números exatos, mas somando os que vivem neste local e os que estão no abrigo em Pintolândia, bairro de Boa Vista, capital de Roraima, cerca de 3% da segunda maior etnia indígena da Venezuela abandonou o país em 3 anos.

E não são os únicos. Ainda que em menor quantidade, algumas dezenas de membros da etnia e'ñapa, do centro do país, também começaram a chegar ao Brasil.

Imigrantes venezuelanos no Brasil são vítimas de exploração do trabalho

"Meus filhos choravam de fome e só conseguia dar comida para eles uma vez ao dia. Por isso, viemos pra cá, onde não temos muito, mas pelo menos sei que eles vão comer três vezes ao dia", diz Euligio Báez, warao de 33 anos, que vivem em Pintolândia com a mulher e cinco crianças.

O refúgio, criado onde antes funcionava uma escola, está limpo e organizado. A estrutura coberta serve como suporte para dezenas de redes e para a cozinha comunitária recém-construída.

Nos pátios, amplas tendas com instalações elétricas servem também de casa para as famílias, divididas por etnia. Os banheiros, externos, foram construídos há pouco tempo.

Um pequeno posto médico oferece até tratamento odontológico. Tuberculose e HIV são duas preocupações em uma população com altas taxas de prevalência, mas que por enquanto estão controladas.

Brasil e Colômbia discutem crise nas fronteiras com a Venezuela

Tanto Pintolândia, onde vivem quase 600 pessoas, quanto a Casa de Passagem se beneficiam do voluntariado da ONG Fraternidade - Federação Humanitária Internacional e de doações nacionais e internacionais.

Sandra Palomino, da coordenação de Pintolândia, explica que ainda que tenham tido sucesso os trabalhos nos refúgios para estabilizar centenas de indígenas que viviam em condições precárias, "o grande desafio que teremos é a partir de agora".

A maioria reúne dinheiro para enviar para suas famílias graças à reciclagem e à venda de artesanatos. Sem planos de inserção trabalhista ou de formação, no entanto, ficaram de fora do plano do Executivo brasileiro de transferir parte dos indígenas para outros Estados para lidar com o avanço da migração venezuelana.

Os abrigos, paliativos temporário, se tornam, assim, insuficientes diante da chegada contínua de novas famílias. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.