REUTERS/Manuel Claure
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Índios aimará da Bolívia se dividem sobre apego de Evo ao poder

Enquanto parte dos membros da tribo do presidente consideram que, mesmo com problemas, os últimos 13 anos de governo foram benéficos para os mais humildes, outros alegam que o nepotismo e projetos vultosos distanciaram líder do povo

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 12h03

LA PAZ - O presidente boliviano, Evo Morales, chegou ao poder em 2006 com a promessa de defender grupos indígenas marginalizados, incluindo sua importante tribo andina aimará, que o ajudaram a conquistar a presidência.

Popularmente chamado apenas de Evo, ele ajudou a tirar muitos da pobreza desde que tomou posse, e até mudou o nome do país para Estado Plurinacional da Bolívia para homenagear seus diversos grupos étnicos, tratados durante muito tempo como cidadãos de segunda classe.

Mas o ex-plantador de coca de esquerda enfrenta uma onda crescente de insatisfação até mesmo entre os grupos indígenas que sempre o apoiaram de forma mais visível agora que busca um quarto mandato inédito e polêmico nas eleições de domingo.

A maioria das pesquisas mostra seu principal rival, Carlos Mesa, se aproximando de Evo, o que faz deste o maior desafio eleitoral ao líder latino-americano há mais tempo no cargo.

Evo conta com o apoio dos mais de 4 milhões de indígenas da Bolívia em sua tentativa de prorrogar seu governo para possíveis 19 anos - uma afronta aos limites de mandato e a um referendo local de 2016 em que a maioria se opôs a que ele concorresse.

Mas muitos aimarás estão divididos a respeito de Evo. Alegações de nepotismo e projetos vultosos - incluindo um palácio presidencial de 28 andares ao preço de US$ 34 milhões em La Paz - criaram a sensação desconfortável de que ele se alienou do povo trabalhador.

“As ideologias indígenas não foram realmente traduzidas na política”, opinou Yolanda Mamani, locutora de rádio aimará de 34 anos que apresenta o popular programa “Chola Bocuda”, uma referência às mulheres indígenas que se vestem com frequência com vestidos brancos e chapéus coco emblemáticos que ganharam mais destaque no governo de Evo.

Mamani, que nasceu na região ao redor das altas altitudes do Lago Titicaca e emigrou para a cidade de El Alto, próxima da capital La Paz, quando tinha 9 anos, disse sentir que a imagem do presidente é mais uma atuação do que algo palpável. “É como um desfile de moda de folclore, como se os indígenas fossem só roupas”, disse.

Sonia Quispe, produtora de mídia de 27 anos que fala e escreve no dialeto aimará, disse pensar diferente.

“Nestes 13 anos de governo Evo Morales, acredito que as pessoas mais humildes foram beneficiadas, os agricultores que vivem da terra”, afirmou, acrescentando que, embora Evo não seja perfeito, só ele pode continuar conduzindo o processo de mudança no país.

"Há muitos problemas e coisas que precisam ser corrigidas, mas eu acredito nele", completou.

Uma questão recente que atingiu a popularidade de Evo foram os incêndios florestais que assolaram a região de Santa Cruz. O presidente encerrou sua campanha eleitoral na terça-feira e foram registrados confrontos violentos entre manifestantes e polícia.

Em seu escritório em La Paz, a deputada Mercedes Marquez falou muito bem de Evo, apesar dos ventos contrários que ele enfrentou nos últimos anos. Ela disse que ele defende os direitos dos povos indígenas após anos de repressão e humilhação.

Essa congressista de 60 anos, que trabalhou como costureira e comerciante antes de entrar na política, destacou o crescimento econômico estável do país nos governos de Evo, um dos mais confiáveis em uma região volátil, ajudado por um boom de recursos naturais.

“Temos gás em nossas casas, unidades educacionais modernas, ruas pavimentadas, campos de futebol, ajuda para as crianças, adultos e mães, um novo sistema de saúde, analfabetismo zero, luta contra a pobreza, teleféricos e mercados modernos”, disse ela. “Apoio a reeleição de Evo Morales e (e do vice-presidente) Álvaro García Linera. Se não apoiar eles, vou apoiar quem?"

Em seu colorido salão de eventos, local conhecido como "cholet", Jhonny Segales, disse que o sucesso da maioria dos aimaras se deve ao trabalho árduo e não à ajuda que recebeu de Evo.

"As pessoas aqui são assim, sempre trabalhando, se reunindo, economizando, esse é o espírito que temos", disse Segales, vestindo uma jaqueta marrom bem justa entre uma ligação e outra para resolver questões comerciais.

"Este governo atinge nosso crescimento com políticas tributárias muito desiguais", disse Segales, que apesar de ter se desiludido, opina que começou Evo fez boas coisas quando chegou ao poder.

“Como eles podem dizer que governam para os pobres, mas gastam milhões em luxo? Quando chegaram ao poder nas primeiras eleições, fizeram coisas boas, mas agora vejo que era apenas para obter nossa simpatia ”, afirmou.

"Este governo não é para todas as pessoas ou para os pobres, como eles dizem, mas apenas para as pessoas que o apoiam." / REUTERS

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