ANTONIO CARLOS / ESTADAO
ANTONIO CARLOS / ESTADAO

Índios venezuelanos buscam abrigo no Brasil

Fugindo do colapso no país vizinho, cerca de 180 indígenas querem viver em aldeias da reservaRaposa Serra do Sol

Cyneida Correia e Luan Correia / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2017 | 20h21

BOA VISTA - A distância de 830 quilômetros entre o município de Tucupita, capital do Estado venezuelano de Delta Amacuro, e Roraima foi pequena para o venezuelano Ciço Kelpes, de 26 anos. Fugindo da fome e da escassez de alimentos que assola o país de Nicolás Maduro, ele encontrou no Brasil a oportunidade de recomeçar uma nova vida.

Kelpes deixou a mulher, a mãe e a irmã em um pequeno vilarejo indígena e percorreu a longa viagem de carona para pedir refúgio. Tudo para que a família não passasse mais fome no país vizinho. “Tive de deixar minha família e vir. Na Venezuela não há alimentos, e os que existem são caros demais. O que eu ganhava lá só dava para arroz e salsicha, que era o que comíamos todos os dias”, disse.

Em Boa Vista, o venezuelano sobrevive da venda de artesanatos. Ganha cerca de R$ 750 por mês, mais do que suficiente para se sustentar e mandar comida para a família. Mas, além da saudade de casa, ele afirma que sofre com o preconceito. 

Há mais de um ano em Roraima, cerca de 180 indígenas venezuelanos da etnia Warao estão vivendo no ginásio poliesportivo e, após reunião com os líderes da Terra Indígena São Marcos, no norte do Estado, realizaram uma assembleia envolvendo 46 comunidades indígenas, entre Yanomami, Wapixana e Macuxi, para que possam ficar na reserva Raposa Serra do Sol.

O indígena Ramon Gomes explicou que os Warao decidiram entre si quem ficaria e quem iria embora. Apesar de não saber quantificar os que pretendem ficar, ele relatou que a maioria não quer voltar à Venezuela. Os líderes indígenas de Roraima informaram que iriam consultar as aldeias para saber se o convívio seria viável.

Fuga. A crise na Venezuela não atinge apenas os indígenas ou a população em geral mais pobre. A empresária María Rodríguez, dona de uma livraria no município de Puerto Ordaz, no Estado de Bolívar, viu seus negócios ruírem e foi obrigada a vender produtos importados nas ruas de Boa Vista.

“Eu era de uma família de classe média alta. Com a crise, a situação ficou difícil para nós e tive de vir para o Brasil trabalhar. A situação está igual para todos, sejam ricos ou pobres, temos sofrido muito lá. Estou conseguindo sobreviver e enviar dinheiro e comida para minha família, mas é só”, conta.

No Brasil, a mulher afirma ganhar cinco vezes mais como ambulante do que como empresária na Venezuela. “Aqui, eu ganho cinco vezes mais do que lá só vendendo produtos importados. Tenho de trabalhar duro, vendendo meus produtos em praças e postos de combustível, mas vale mais a pena que passar fome”, destaca. 

A migração de venezuelanos a Roraima cresceu de forma exponencial em 2016. A estimativa do governo estadual é que 30 mil estrangeiros vindos do país vizinho vivam atualmente no Estado. Para atender a esse crescimento populacional, foi criado o gabinete Integrado de Gestão Migratória, que de outubro de 2016 a março deste ano fez cerca de 50 mil atendimentos a estrangeiros que atravessaram a fronteira seca em Pacaraima, última cidade brasileira antes do território venezuelano.

A mudança já é sentida pelo Estado brasileiro em áreas como educação, onde houve aumento de 57% em 2016 na quantidade de alunos venezuelanos nas escolas. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.