Indonésia continua sob ameaça terrorista, segundo especialistas

Apesar das mais de 300 detenções feitas nos últimos dois anos na Indonésia, especialistas em terrorismo afirmaram nesta terça-feira na capital do país, Jacarta, que a ameaça terrorista continua. A advertência foi feita durante um colóquio por ocasião dos quatro anos do pior atentado cometido no país em 2002, na cidade de Bali."O terrorismo ainda é uma ameaça real. Os terroristas ainda são capazes de recrutar e treinar novos membros", afirmou o diretor do Departamento Antiterrorista do Ministério de Segurança e Política indonésio, Ansyaad Mbai.A diretora nacional da organização International Crisis Group, Sydney Jones, disse que os bons resultados policiais, entre eles a detenção de vários líderes terroristas, enfraqueceram muito a estrutura das redes na Indonésia.Os dois especialistas evitaram fazer previsões sobre a possibilidade de haver um novo ataque terrorista antes do final deste ano.AtentadosEm 12 de outubro de 2002, várias explosões cometidas quase simultaneamente na ilha de Bali mataram 202 pessoas, a maioria turistas ocidentais.Desde então, a Indonésia vem sofrendo todos os anos ao menos um ataque terrorista de grandes proporções, particularmente nos últimos quatro meses do ano, período que passou a ser conhecido como "bombing season" ("estação dos atentados").A Polícia atribui as ações à organização Jemaah Islamiya, inspirada na Al Qaeda."Noordin (Mohammad Top, malaio, o terrorista mais procurado da Indonésia) tinha planejado um grande atentado a cada ano", afirmou Jones, citando informação obtida dos documentos apreendidos em uma operação antiterrorista em novembro de 2005, em Java.Jones afirmou que a morte do malaio Azahari bin Husin, considerado o maior artífice da Jemaah Islamiya, e de vários militantes que exerciam funções estratégicas na organização dificulta a preparação de novos atentados, "mas ainda é possível" que aconteçam, advertiu.Internet"Descobriu-se o uso da internet com o objetivo de recrutar militantes", disse Mbai, dando como exemplo a informação obtida no computador usado por Imam Samudra, um indonésio condenado à morte por sua participação ativa no atentado de Bali em 2002, enquanto estava preso. Jones e Mbai concordaram sobre a crescente importância do terrorismo na internet."Imam Samudra conseguiu se comunicar pela internet com membros de seu grupo dizendo que estava preparado para enviar pessoas à Alemanha, Iraque e Israel", afirmou Mbai.Longe de ser uma exceção, o acesso a telefones celulares e outros dispositivos de comunicação é comum nas prisões indonésias, uma das instituições mais corruptas do país.Manuais terroristasJones ressaltou que os presídios também são um dos principais veículos de difusão dos manuais terroristas procedentes do Oriente Médio."Existe uma rede de voluntários que faz buscas na internet e traduz manuais do Oriente Médio. Embora sejam traduzidos do árabe, suas diretrizes são universais: como recrutar, como fazer o financiamento, como planejar a fuga. Podem ser aplicáveis à Indonésia, a Londres, ao Marrocos ou a qualquer outro lugar", afirmou Jones.A especialista americana afirmou que esses documentos são publicados por editoras indonésias e alguns podem, inclusive, ser comprados em livrarias das grandes cidades do país.O chefe do departamento antiterrorista ressaltou que as operações policiais e de inteligência devem continuar e se intensificar, mas sozinhas não podem acabar com o terrorismo. Mbai disse que é necessário acabar com a ideologia radical divulgada por grupos fanáticos.Por esse motivo, anunciou que o Governo indonésio iniciou um "plano de ´desradicalização´", mas não deu mais detalhes sobre a medida.Jones ressaltou que esse plano tem que ser levado às escolas islâmicas, especialmente àquelas com uma ideologia mais radical e que tenham laços explícitos com membros da Jemaah Islamiya que estão presos."O problema não acabou, não desaparecerá em muito tempo, mas não vamos superestimá-lo", concluiu Jones.

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