Indonésia é foco de nova frente de terrorismo

O Jemaah Islamiyah, a Al-Qaeda da Ásia, prolifera-se com a libertação de ex-combatentes, dez anos após atentados de Bali, e ameaça estabilidade

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL/ JACARTA, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2013 | 02h05

Abdul Rauf passa anônimo entre os estudantes que circulam num fim de tarde pelas ruas de Jacarta, a movimentada capital da Indonésia. Usa calça de sarja e camiseta, bolsa tiracolo de lado e óculos de aro preto retangular que lhe conferem um ar intelectual. Quem o vê entrar no café Starbucks, não imagina estar diante de um terrorista, envolvido em uma nova frente jihadista letal que se alastra pelas ilhas da Indonésia.

Em parte, é formada por velhos combatentes do Jemaah Islamiyah (JI), a Al-Qaeda do Sudeste Asiático. Condenados pelo mais violento atentado na história da Indonésia, que deixou 202 mortos no balneário de Bali, em 2002, seus líderes começam a sair da prisão e tentam se reagrupar, como mostrou reportagem publicada ontem pelo Estado, que flagrou um encontro de milicianos de alto escalão do grupo, no subúrbio de Jacarta.

Abdul Rauf passou 10 dos seus 31 anos na cadeia pelo assalto a uma joalheria, que ajudou a financiar a ação em Bali, e por recrutar alguns dos terroristas. Entre os homens-bomba estava Iqbal, seu melhor amigo. Com o visual renovado, recém-saído da prisão, Rauf concorda em encontrar a reportagem no centro comercial Oakwood, à sombra do hotel JW Marriott, explodido duas vezes, em 2003 e 2009, por seus amigos do JI.

O ataque em Bali, no rastro do 11 de Setembro e realizado com apoio direto da Al-Qaeda, colocou a Indonésia na mira da CIA. Depois disso, o grupo fez poucos atentados e nunca com a mesma proporção. Pelo menos 830 acusados de ligação com o terrorismo foram presos na última década. Eles agora deixam a prisão.

Mais de 300 ganharam a liberdade este ano ou serão soltos até 2014, segundo o Instituto de Defesa e Estudos Estratégicos. Ocorrências recentes, o acirramento do conflito sectário internos entre muçulmanos e cristãos e a descoberta de planos de ataques contra alvos ocidentais, entre eles a Embaixada dos EUA, duas semanas antes da visita do presidente Barack Obama ao país, em novembro, foram atribuídos a reincidentes, sinais de que reassumiram a jihad.

Com um agravante: "A repressão ao JI fez com que o grupo se dividisse, entre os que se mantém leais a Abu Bakar Bashir (o líder espiritual do JI) e dissidentes, ainda mais radicais", explica Taufik Andrie, pesquisador do Institute for International Peace, de Jacarta, que trabalha com a desmobilização de jihadistas.

No mês passado, sete acusados de planejar novos ataques contra destinos turísticos nas ilhas de Sulawesi e Sumbawa foram presos e quatro, mortos pela polícia. Com eles, havia 261 bombas caseiras e 50 quilos de material para fabricação dos artefatos explosivos.

"Gostaria de viver em paz, mas em Poso isso não é possível", diz Rauf, sobre o distrito de Sulawesi. Poso foi palco de confrontos violentos entre cristãos e muçulmanos, no início dos anos 2000, com mortes de ambos os lados. O conflito voltou a assombrar a região sob o comando de Santoso, fugitivo, líder do recém-criado Comando Mujahedine do Leste da Indonésia, dissidente do JI, com o qual Rauf está envolvido.

O plano contra alvos americanos, desvelado no fim do ano, foi atribuído a outro grupo antes desconhecido, o Movimento Sunita, que se descobriu mais tarde ser uma facção do JI. Em 2011, um novo campo de treinamento de jihadistas foi descoberto em Aceh, sob comando de Bashir, o fundador do JI. O religioso, de 74 anos, foi preso com 60 novos recrutas. Para despistar as autoridades, ele havia rebatizado seu grupo para Jemaah Ansharut Tauhid, agora na lista dos EUA de organizações terroristas.

O racha do JI em subgrupos dificulta o rastreamento. Sob a bandeira da democracia e liberdade, muitas das novas organizações operam no país sob o disfarce de sociedades islâmicas, como fazia o clérigo Bashir, escolas religiosas e mesquitas.

Rauf viveu até os 17 anos em uma pesantren (escola corânica em regime de internato, as madrassas da Indonésia). Lá foi cooptado pelo imã Samudra, o mentor dos atentados de Bali, executado em 2008, que dava sermões aos alunos e exibia a eles vídeos da morte de muçulmanos por cristãos nos confrontos em Poso.

"Eu não era muito religioso, mas o conflito em Poso nos uniu. O imã Samudra era uma inspiração", diz. Iqbal, o amigo suicida de Rauf, passou pela mesma escola. "Não é difícil convencer alguém a ser um homem-bomba quando se vive conflito como em Poso."

Rauf sustenta que não sabia do atentado em Bali, achava que o roubo era para financiar a jihad contra cristãos. Se envolveria se soubesse? "Talvez." Concorda com a morte de civis? "Sim. Se cristãos radicais estão nos atacando, é meu dever fazer algo."

Segundo o chefe da polícia antiterrorismo da Indonésia, Ansyaad Mbai, homens como Rauf formam uma nova frente de jihadistas, que prolifera em regiões como Aceh, Java, Sulawesi e o oeste de Nusa Tenggara.

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