Hotli Simanjuntak/EPA/EFE
Hotli Simanjuntak/EPA/EFE

Indonésia registra o maior número de mortes entre crianças por covid-19

Quantidade de mortes contraria a ideia de que o risco da covid-19 é mínimo no caso de menores de 12 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2021 | 20h23

JACARTA - Na Indonésia, centenas de crianças morreram em decorrência do coronavírus nas últimas semanas, muitas com menos de 5 anos, uma taxa de mortalidade maior do que a registrada em qualquer outro país, contrariando a ideia de que o risco da covid-19 é mínimo no caso de crianças, afirmam os médicos.

As mortes, mais de 100 em uma semana neste mês, ocorreram num momento em que a Indonésia registra o maior aumento de casos da doença até hoje. Os líderes indonésios enfrentam crescentes críticas de que estão despreparados e têm sido muito lentos nas suas ações. “Os números são os mais altos no mundo”, afirmou o diretor da Indonesian Pediatric Society, Aman Bhakti Pulungan. 

O salto no número de mortes de crianças coincide com o aumento de casos provocados pela variante Delta – detectada pela primeira vez na Índia –, que se propagou por todo o Sudeste Asiático onde o número de pessoas vacinadas é baixo, levando a uma explosão de infecções não só na Indonésia, mas na Tailândia, Malásia, Mianmar e Vietnã.

A Indonésia, com a quarta maior população do mundo, ultrapassou este mês a Índia e o Brasil em número de casos diários e se tornou o novo epicentro da pandemia. Na sexta-feira, o governo reportou quase 50 mil novas infecções e 1.566 mortes entre a população inteira.

Com base em relatórios de pediatras, as crianças agora constituem 12,5% dos casos confirmados, disse Aman. Mais de 150 crianças morreram durante a semana de 12 de julho, e metade das mortes foi daquelas com menos de 5 anos.

No total, a Indonésia contabiliza mais de 3 milhões de casos e 83 mil mortes, mas especialistas da área da saúde afirmam que o número real é muito mais alto porque os testes são bastante limitados. Segundo os críticos, os líderes indonésios relegaram os especialistas em saúde a um papel secundário no combate à propagação do vírus. 

No domingo, o presidente indonésio, Joko Widodo, ampliou algumas restrições de aglomerações e comércio até o dia 2, mas flexibilizou outras. Widodo, ex-empresário, relutou em estabelecer lockdowns que prejudicam a economia. 

Mais de 800 crianças e adolescentes com idade inferior a 18 anos morreram desde o início da pandemia, mas a maioria das mortes ocorreu somente no mês passado. “Até agora, as crianças eram vítimas ocultas desta pandemia”, afirmou Yasir Arafat, assessor do grupo sem fins lucrativos Save the Children. “Agora não mais.”

“Não só países como a Indonésia registram números recorde de crianças morrendo por causa do vírus, mas estamos observando um número alarmante de crianças sem vacinação e serviços de nutrição que são cruciais para sua sobrevivência, o que deveria ser motivo de um forte alarme”, disse ele.

Especialistas afirmam que inúmeros fatores contribuíram para esse grande número de mortes entre as crianças. Algumas ficaram vulneráveis ao vírus por causa de problemas de saúde preexistentes como desnutrição, obesidade, diabete e doença cardíaca.

A lenta vacinação no país é outro fator. Apenas 16% dos indonésios receberam a primeira dose da vacina e somente 6% estão totalmente vacinados, segundo o projeto Our World in Data, da Universidade Oxford. Como outros países, a Indonésia não vacinou crianças com menos de 12 anos e apenas recentemente as com idade entre 12 e 18 anos começaram a ser vacinadas.

Ao mesmo tempo, muitos hospitais estão sobrecarregados, operando no limite, com pacientes em corredores. Poucos hospitais estão preparados para atender crianças com covid. “Se as crianças adoecem, onde vamos tratá-las?, indagou Pulungan. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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