ADEK BERRY / AFP
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Indonésia tem nova preocupação com o coronavírus: um baby boom pós-pandemia

Com restrições de mobilidade, milhões deixaram de frequentar clínicas para buscar contraceptivos, segundo o governo; estimativa é de até 500 mil nascimentos não planejados em 2021

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 17h15

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JAKARTA - Veículos do governo começaram a aparecer nas cidades da Indonésia em maio equipados com alto-falantes e divulgando uma importante mensagem: "vocês podem fazer sexo. vocês podem se casar. Mas não engravidem", diziam os funcionários da saúde.

"Pais, por favor se controlem. Vocês podem se casar. Vocês podem fazer sexo contanto que usem contraceptivos". As autoridades da Indonésia estão preocupadas com uma possível consequência indesejada das restrições impostas em razão do coronavírus: um baby boom pós-pandemia. 

Em abril, enquanto pessoas por todo o país precisavam ficar em casa, cerca de 10 milhões de casais casados deixaram de usar contraceptivos, segundo a Agência Nacional da População e do Planejamento Familiar, que coleta dados de clínicas e hospitais que distribuem métodos contraceptivos. 

Muitas mulheres não conseguiam acesso aos métodos porque os fornecedores estavam fechados. Outras não queriam arriscar sair de casa por medo de se contaminarem com o vírus. Agora, as autoridades esperam uma onda de nascimentos não planejados em 2021, muitos em famílias pobres que já sofrem para manterem o mínimo. 

"Estamos com medo de deixar nossas casas, principalmente se for para ir ao hospital, que é a fonte de todas as doenças", afirmou Lana Mutisari, de 36 anos, uma mulher casada que vive em um subúrbio da capital Jakarta, após cancelar uma consulta para colocar o DIU. "Lá existem todos os tipos de doenças."

Hasto Wardoyo, obstetra e ginecologista que atua na agência de planejamento familiar, estima que no ano que vem deverão ocorrer entre 370 mil e 500 mil novos nascimentos no país que normalmente vê cerca de 4,8 milhões por ano. Isso seria um retrocesso para os esforços da Indonésia em incentivar famílias menores, ponto fundamental na luta contra a má nutrição infantil. 

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O presidente Joko Widodo colocou como objetivo nacional reduzir pela metade o índice de nanismo infantil, resultado da má nutrição e outros fatores, em quatro anos.

Na Indonésia, os métodos contraceptivos são fornecidos gratuitamente aos mais pobres. Os casais jovens recebem visitas de representantes do governo que os incentivam a usar sistemas de controle de nascimento - o que foi interrompido com a pandemia do novo coronavírus

Métodos

Segundo a agência de planejamento familiar, metade das mulheres do país que usam contraceptivos usam injeções de hormônios administradas mensalmente ou a cada 3 meses. Outros 20% das mulheres usam pílulas, que devem ser retiradas todo mês.

Regulamentos foram revistos para permitir a entrega de contraceptivos em casa e liberar que as mulheres obtivessem remédios necessários por um período maior do que um mês. Em abril, o governo começou a entregar contraceptivos junto com suprimentos de comida. 

Além disso, a agência ampliou os esforços em divulgação, com o uso de caminhões com alto-falantes e por meio de redes sociais, pedindo que os casais deixem para engravidar após a crise do coronavírus. 

Na cidade de Semarang, a mensagem surtiu efeito. Novita Saputri, de 28 anos, casada há 18 meses, quer ter filhos, mas decidiu esperar o fim da pandemia. 

A Indonésia registrou mais de 34 mil infecções da covid-19 e quase 1.900 mortes. Em Jakarta, o primeiro epicentro da doença no país, o número de novos casos tem diminuído, por isso mesquitas, shoppings e escritórios estão reabrindo aos poucos neste mês. Mas em outras cidades as restrições continuam porque o número de casos está aumentando. 

O envolvimento do governo no planejamento familiar data de 1970, quando o país vivia uma ditadura militar comandada pelo presidente Suharto. Soldados promoviam o uso de contraceptivos e médicos militares realizam vasectomias e ligação de trompas. 

Ainda hoje, a agência de planejamento familiar continua trabalhando com os militares e a polícia, que auxilia na entrega de remédios a domicílio. / NYT

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