(Luis Antonio Rojas / The New York Times)
(Luis Antonio Rojas / The New York Times)

Indústria da piñata afunda na pandemia

O setor, que depende das reuniões sociais, viu suas vendas despencarem. Alguns artesãos, para sobreviverem, adicionaram o coronavírus à sua lista de figuras de super-heróis e princesas

Oscar Lopez, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 04h30

CIDADE DO MÉXICO - A visão é chocante nesse contexto de smog e concreto nessa parte da Cidade do México, com um emaranhado de vias expressas e elevados, os ônibus velhos roncando e soltando fumaça.

Mas ali, brotando como flores em meio aos edifícios cinzentos, as filas de piñatas estão expostas, em todas as cores, do fúcsia ao azul noturno e verde. Na calçada, uma pinãta encarnando uma piñata de Homem Aranha tem ao lado um Batman, e um Mickey Mouse encostado na figura de Sonic the Hedgehog.

E entre os personagens de desenho animado, super-heróis e princesas da Disney uma figura mais recente foi acrescentada ao repertório mexicano. Pintado em verde com uma coroa dourada, suas pontas irrompendo em todas as direções, o coronavírus olha para os que passam.

A piñata da pandemia é uma das opções mais populares, disse Ivan Mena Álvarez, que dirige uma das mais antigas lojas no bairro de Cuauhtémoc.

Transformar um vírus mortal numa efígie cômica choca algumas pessoas, que consideram uma decisão perigosa, especialmente num país com o terceiro maior número de mortos por covid-19 no mundo. Mas Mena diz que seus clientes recebem bem a chance de golpear um substituto de um adversário que tem provocado estragos na economia e devastado comunidades inteiras.

“Nós, mexicanos, rimos até da morte. Ele se tornou apenas mais um monstro”, disse Mena.

Grande parte dos fabricantes de piñata, com frequência famílias muito próximas cujo negócio depende das reuniões sociais, e que deixaram de trabalhar durante a pandemia, como muitos setores do país, sofreu financeira e pessoalmente no ano passado.

As vendas de Mena despencaram, o que o deixou numa terrível situação econômica, mas as perdas pessoais foram ainda mais duras. Onze membros da sua família morreram de covid-19, além de dezenas de outros do setor que ele teve conhecimento.

“É muito difícil para nós. Jamais me passou pela cabeça que haveria tantos mortos em tão pouco tempo”.

No mês passado, o governo mexicano atualizou os números oficiais, mostrando que o vírus pode ter provocado mais de 300.000 mortes, um número assombroso para o país de 126 milhões de habitantes.

O efeito da pandemia sobre a economia também tem sido ruinoso. No ano passado o México registrou a sua maior desaceleração econômica desde a Grande Depressão, com milhões de pessoas empobrecidas.

Os negócios com a piñata, uma tradição nacional no México que remonta ao século 16, estão em grande parte paralisados por causa da proibição de festas de aniversário e outros tipos de reunião, uma vez que essas figuras recheadas de guloseimas são parte central de muitas celebrações.

“Você não pode trabalhar, não há mais festas, ninguém compra”, disse Dalton Ávalos Ramírez, dono de uma loja de piñatas em Reynosa, perto da fronteira com os Estados Unidos. Ele vendia de 20 a 30 piñatas por semana antes da pandemia, cobrando de US$ 15 a US$ 125 cada uma, e agora uma ou duas em semanas.

Mena, da Cidade do México, faz parte da quarta geração da família que está nesse negócio há quase um século. Seus avós, disse ele, foram um dos primeiros a abrir uma loja nesta região da capital.

“Somos pioneiros”, disse.

Ele criou sua primeira piñata aos seis anos de idade. Em sua mesa de trabalho há uma foto dele com nove anos, quando já fabricava suas piñatas com a forma de uma estrela de sete pontas,  uma pinãta importante na tradição natalina do México.

“Você desenvolve um amor por este trabalho. Está no seu sangue”, afirmou.

Mena não estava preparado para o impacto devastador da pandemia. Quando grande parte do país fechou no final de março do ano passado, suas vendas caíram 90%, disse ele. Cinco empregados foram demitidos e tiveram de deixar a Cidade do México.

Para sobreviver, ele começou a improvisar. Junto com a do coronavírus, começou a vender piñatas com figuras de Susana Distancia, super-heroína do distanciamento social no México, como também de Hugo López-Gatell, epidemiologista encarregado da gestão no combate à pandemia, que tem sido muito atacado por ter subestimado enormemente o número de mortos na pandemia.

“As pessoas o espancariam porque ele não disse a verdade”, disse Mena”, referindo-se à piñata de Lópes-Gatell.

Para aumentar as vendas, Ramírez, o dono da loja em Reynosa, também decidiu diversificar suas ofertas. Aprendeu a fazer bolos e sua irmã o ensinou a fazer arranjos com balões.

“Se não temos trabalho numa coisa então vamos fazer uma outra”, disse ele.

Mas apesar da engenhosidade desses artesãos, as vendas têm crescido pouco e o governo mexicano oferece quase nada em termos de estímulo para eles sobreviverem.

Sentado entre uma piñata de uma Mulher Maravilha e um retrato da Virgem Maria, Mena chorou ao lembrar como a situação ficou tão desesperadora no ano passado a ponto de seus clientes e vizinhos começarem a oferecer pacotes de alimentos em troca das piñatas para auxiliá-lo e a sua família e outros fabricantes de piñata que ajudam sua empresa a se manter.

“As pessoas já nos conheciam, graças a Deus, boas pessoas. Elas nos ajudaram”, disse ele.

Embora a situação atual continue sombria, Mena está mais otimista com o futuro. Com as vacinações começando, embora lentamente, ele acha que a sua empresa e esse setor que existe há séculos e do qual tem tanto orgulho, finalmente começará a se recuperar.

“Como a fênix que renasce das cinzas, o negócio da piñata começa a se recuperar”. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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