Indústria do luxo começa a pagar pela crise e pela guerra

A indústria do luxo, normalmente a última a ser atingida pela crise, começa a sentir os efeitos das ameaças de recessão econômica mundial e dos atentados. A repercussão mais imediata foi sentida pelas empresas aéreas e de hotelaria de grande luxo nos EUA e na Europa, a chamada indústria do lazer. Os hotéis de grande luxo como o Bristol, George V, Plaza Athenée e Ritz, em Paris, e o Dorchester e Claridge´s de Londres tiveram uma queda imediata de 20 % na sua frequência - o mesmo ocorrendo com os restaurantes mais estrelados , os mais caros e chiques dessas duas capitais, mas também de outras cidades turísticas européias como Florença, Veneza. Isso, em grande parte, devido à deserção parcial de sua maior e melhor clientela, a norte- americana. Agora, quem está sofrendo são grupos como LVMH, número um mundial de produtos de luxo, mas também Pinault Valenciennes (Gucci), cujas vendas chegaram a cair entre 20% e 40 % diante das incertezas que o futuro nos reserva. A década de 90 foi marcada pela grande expansão de marcas de luxo de champanhe como Moet - Hennessy, bolsas como Gucci e Louis Vuiton, etc. Se em Nova York, onde a queda foi mais importante, pouco a pouco os clientes estão timidamente voltando às grandes butiques de Manhattan, na Europa as notícias não são boas, pois a maior parte dos países acreditou estar mais protegido da crise econômica - que já se transforma em recessão nos EUA. Sofrem Alemanha, França, Itália Os maus resultados parecem ter atravessado o Atlântico pegando em cheio a economia alemã, até então a locomotiva da Europa, não poupando França e Itália, países entre os que mais arrecadam com a indústria do luxo. O grupo LVMH , número um mundial do setor, que esperava dobrar seu faturamento nos próximos cinco anos, registra uma queda de 8% nas suas vendas no mês de setembro em relação ao mesmo período do ano anterior. Antes mesmo dos atentados, esse grupo (um quarto de seu faturamento global é obtido nos EUA), já havia revisto sua previsão de resultados para baixo, mas agora está prevendo um crescimento zero em 2001 . Esse resultado é ainda considerado bom, se levadas em conta as circunstânciais atuais, afirma seu diretor financeiro Patrick Houel. Já Domenico Sole, presidente da Gucci (grupo Pinault -Printemps- Redoute), explica que no início de setembro preparava-se para anunciar resultados mais importantes do que os obtidos no ano 2.000, mas os atentados do dia 11 mudaram tudo e os números terão que ser revistos. Também o terceiro grupo mundial da indústria do "prêt-à-porter " de luxo, Prada, parece ser o que mais está sofrendo, pois suas vendas caíram 40% nos EUA e sua entrada em bolsa prevista para este ano foi adiada sine die. Depois de ter adquirido diversas outras marcas, a situação do grupo Prada, com US$ 700 milhões em dívidas, não é das mais confortáveis. O grupo poderá ser obrigado a vender algumas de suas marcas , inclusive a metade da Fendi, que controla juntamente com LVMH, além da indústria de calçados inglesa Church. Analistas do grupo Merrill Lynch estão convencidos de que só os grupos mais fortes deverão sobreviver. Esses três grupos dependem , em grande parte do mercado norte americano e dos turistas japoneses que suspenderam seus programas de viagens. As filas que se formavam de turistas japoneses junto as lojas Louis Vouiton em Paris, preocupando os responsáveis da marca para manter seus estoques, desapareceram com o um passe de mágica. Dessa forma, eles serão mais fortemente atingidos do que os grupos locais que começam a recuperar alguns de seus clientes, cujos reflexos de consumo pouco a pouco estão sendo recuperados depois do grande susto da primeira quinzena de setembro. A análise em relação a alguns países emergentes, onde os consumidores do grande luxo constituem um mercado limitado ( no Brasil estima-se entre 3.000 e 5.000 clientes apenas ) , mas um investimento tido como altamente rentável segundo as grandes marcas em razão do volume de compras, a queda das vendas foi bem menos importante, quase insignificante. Isso porque o impacto da crise e dos atentados foi bem menor, pois esses países a grandes contrastes sociais não se encontram envolvidos diretamente no conflito como os EUA e Inglaterra e numa menor medida França, Alemanha e outros europeus. Nas grandes coleções de alta costura primavera verão de há duas semanas atrás na França, a maior parte da clientela norte americana não compareceu em razão do clima de incertezas que prevalece nos EUA, o mesmo não ocorrendo com os compradores dos países emergentes que não parecem ter nenhuma dúvida quanto a capacidade de compra da sua limitada, mas abonada clientela.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.