Dado Ruvic/Illustration/Reuters
Dado Ruvic/Illustration/Reuters

Indústria farmacêutica cobra Biden por seu apoio à quebra de patentes

Grupo de Pesquisadores e Fabricantes Farmacêuticos dos EUA (PhRMA), associação que inclui fabricantes como AstraZeneca, Pfizer e Johnson & Johnson alerta que a proposta 'vai enfraquecer ainda mais as cadeias de abastecimento'

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 17h14

WASHINGTON - O surpreendente apoio do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, à suspensão das patentes das vacinas contra a covid-19 colocou as empresas farmacêuticas em pé de guerra. Elas criticaram nesta quinta-feira, 6, sua iniciativa, considerando que ela prejudica a inovação e não representa uma solução na luta atual contra a pandemia.

O grupo de Pesquisadores e Fabricantes Farmacêuticos dos EUA (PhRMA), associação que inclui fabricantes como AstraZeneca, Pfizer e Johnson & Johnson - fabricantes de vacinas contra a covid-19 - alertou que a proposta "vai enfraquecer ainda mais as cadeias de abastecimento. E vai alimentar a proliferação de vacinas falsas".

A crítica foi feita em um comunicado do presidente desta organização, Stephen Ubl, que também alertou que a iniciativa "vai semear confusão entre os parceiros públicos e privados".

O jornal The Wall Street Journal, referência no mundo dos negócios, publicou nesta quinta-feira um áspero editorial intitulado O roubo das patentes de vacinas de Biden no qual questiona: “Quem vai investir em terapias no futuro quando a Casa Branca ajudar os outros governos a roubar?".

Para destacar a complexidade do processo de produção, a Pfizer destacou que sua vacina, desenvolvida com o laboratório alemão BioNTech, requer 280 componentes de 89 fornecedores diferentes localizados em 19 países.

O CEO da Pfizer, Albert Bourla, disse à emissora CNBC esta semana que a proposta a ser discutida na Organização Mundial do Comércio (OMC) "não faz sentido" nem fará "nada" para facilitar a fabricação de vacinas em países onde o desenvolvimento "carece da infraestrutura necessária".

Ele também criticou como isso desencorajaria a indústria em futuras pandemias.

Caso à parte é a Moderna, que assegurou nesta quinta-feira que seus negócios não serão afetados por uma eventual suspensão de patentes, embora duvide que a medida, tal como as outras farmacêuticas, possa contribuir para melhorar o fornecimento de doses.

"Nada muda para a Moderna", disse o CEO da empresa, Stéphane Bancel, que lembrou que sua empresa já havia dito em outubro que não forçará o respeito a suas patentes relacionadas à covid-19 durante a pandemia.As críticas das empresas farmacêuticas coincidiram com novas quedas nos mercados de ações. Pelo segundo dia consecutivo, as ações da Pfizer, Moderna, Novavax e Johnson & Johnson, que na quarta-feira já tinham sido atingidas pelas notícias, ficaram novamente no vermelho desde o início do pregão.

Quase metade dos EUA já tomou ao menos uma dose 

Índia e África do Sul, apoiadas por dezenas de países em desenvolvimento, pedem à OMC desde outubro a suspensão de patentes de vacinas, testes e tratamentos contra covid-19 para que possam ser produzidos em outros países.

Até agora, os EUA e outros produtores desses medicamentos, como a União Europeia (UE), o Reino Unido e a Suíça, se opuseram à suspensão de patentes, alegando que a propriedade intelectual funciona como um incentivo para o desenvolvimento de vacinas e outros produtos contra esta e futuras pandemias.

Biden finalmente cumpriu sua promessa de campanha de endossar a proposta de retirada das patentes, mas só o fez quando o país já administrou mais de 250 milhões de doses e pretende ter 70% da população de 328,2 milhões vacinada em julho.

A representante de Comércio Exterior dos Estados Unidos, Katherine Tai, anunciou a posição de Washington na quarta-feira e, embora tenha deixado claro que o governo continua a acreditar "firmemente" na proteção da propriedade intelectual, ela insistiu que esta é uma crise de saúde global e "extraordinárias circunstâncias "exigem medidas extraordinárias".

Enquanto isso, aumenta a desigualdade entre nações pobres e ricas, nas quais as campanhas de vacinação já começarão a beneficiar adolescentes e estão possibilitando o levantamento de parte das restrições. 

O G-7 - grupo dos países mais industrializados do mundo - prometeu apoio financeiro ao sistema Covax, voltado para nações com menos recursos, mas que entregou apenas 49 milhões de doses para 121 países e territórios, longe da meta de 2 bilhões até 2021.

Até o momento, 1,2 bilhão de doses de vacinas foi administrado no mundo, o que representa apenas 16% da população total, segundo dados compilados pelo projeto Nosso Mundo em Dados da Universidade de Oxford. No entanto, a desigualdade no acesso entre os países é enorme.

Enquanto na Venezuela apenas 0,9% de sua população recebeu pelo menos uma dose, na África do Sul, 0,6%, e no Irã, 1,6%, no caso do Reino Unido mais de 76% de seus habitantes já foram vacinados e na Espanha esse número é de 38%./EFE e AFP  

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