Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015
Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015

Indústria petrolífera da Rússia tem futuro difícil, mas é capaz de se adaptar; leia análise 

Setor tem mão de obra local abundante, mas mudança é inevitável; petróleo russo começa a ser vendido com grandes descontos

Stanley Reed / The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 05h00

Uma semana depois que um grupo de executivos ocidentais da Exxon Mobil, BP, Shell e outras empresas petrolíferas denunciou o ataque violento da Rússia na Ucrânia e prometeu se retirar dos empreendimentos russos, os indícios são de que a turbulência para o setor de energia da Rússia apenas começou.

Para as companhias petrolíferas, três décadas de investimentos cuidadosos no que sempre foi um ambiente político difícil estão prestes a ir rapidamente por água abaixo. Mas o ponto alto do envolvimento das empresas ocidentais na Rússia ficou para trás há alguns anos, impulsionado em parte pela indignação com a anexação da Crimeia por Moscou, em 2014.

A indústria petrolífera russa, provavelmente, passará por uma profunda reformulação sobre como fazer negócios nas próximas semanas, meses e até anos. No curto prazo, o acerto de contas virá não porque as maiores companhias petrolíferas estão saindo do país, mas porque o petróleo e o gás russos, de repente, se tornaram nocivos a compradores.

Ontem, o presidente Joe Biden anunciou a proibição das importações de petróleo russo para os EUA, medida que visa punir ainda mais a Rússia economicamente. No mesmo dia, a Shell, a maior empresa petrolífera da Europa, disse que deixaria de comprar petróleo e gás do país e “retiraria seu envolvimento em todos os hidrocarbonetos russos”.

Até a invasão, o petróleo russo era um combustível importante na Europa e em outros mercados, incluindo os EUA, onde representava cerca de 7% das importações. Agora, o petróleo russo está sendo vendido com grandes descontos em relação ao petróleo de referência internacional ou não está sendo vendido. Além dos EUA, outros países estão considerando a possibilidade de impor embargos às importações de energia russa.

Desafio

A questão que a indústria russa enfrenta imediatamente é se deve desacelerar a produção. A Rússia produz cerca de 10% do suprimento mundial de petróleo. “Não há razão para produzir mais petróleo se você não pode vendê-lo”, disse Tatiana Mitrova, especialista e pesquisadora do Columbia Center on Global Energy Studies.

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As empresas russas estariam negociando com novos compradores na Ásia e em outras regiões onde a reação contra a invasão na Ucrânia é menos pronunciada. Mitrova acrescentou que, com o tempo, “haverá uma orientação massiva dos fluxos de petróleo e gás dos mercados europeus, em primeiro lugar para a China”. Com isso, a Rússia vai acelerar a expansão dos oleodutos e gasodutos existentes para o gigante asiático.

No longo prazo, o futuro da indústria russa, que financia grande parte do orçamento do governo, ficou nebuloso. A China, por exemplo, é uma negociadora difícil que paga apenas uma fração do preço do gás natural russo que os clientes de países europeus ricos, como Alemanha e Itália, pagam hoje.

Além disso, a produção dos vastos campos de petróleo da Sibéria Ocidental e de outras operações mais antigas que sustentaram por décadas a Rússia como um líder mundial da produção de petróleo está em declínio. Já os novos campos desenvolvidos ao redor do Ártico são “notáveis por suas duras condições operacionais e custos mais altos”, cita um estudo recente da Energy Aspects, empresa de pesquisa no ramo energético.

No passado, as empresas ocidentais assumiram projetos complexos, como perfuração offshore e desenvolvimento de gás natural liquefeito (GNL). Os concorrentes russos ficaram com empreendimentos mais simples. Por isso, de onde virá o capital e o conhecimento para os projetos atuais está em aberto. O mais importante desses desenvolvimentos, Vostok, que se espalharia por uma vasta região do norte, “poderia ser interrompido à medida que as sanções dos EUA e da União Europeia colocam uma pressão crescente sobre a indústria russa”, diz o estudo.

A Vostok, que aglutina um grupo de projetos na área do petróleo, pode ser a esperança da Rússia para os próximos anos. Especialistas dizem que a indústria russa, provavelmente, pode continuar indo bem por algum tempo, mesmo depois que as grandes empresas venderem ou se desfizerem de seus investimentos.

A saída de centenas de especialistas e técnicos da Rússia, com a retirada de empresas ocidentais, terá impacto no país e a indústria pode ter problemas para encontrar soluções de alta tecnologia, mas os empreendimentos envolvendo empresas ocidentais respondem por apenas 15% da produção de petróleo russa, calcula a especialista Tatiana Mitrova.

A Rússia tem uma grande indústria de petróleo e gás com pessoal treinado que pode operar a maioria das instalações, dizem analistas. “É muito fácil encontrar técnicos russos para trabalhar nesses projetos”, disse Serkan Sahin, analista que acompanha o petróleo russo na Energy Aspects.

Debandada

Bem antes da invasão da Ucrânia, as empresas ocidentais deixaram de ver a Rússia como uma parte crucial de seu futuro. Em 2018, a Exxon Mobil foi forçada a desistir de seu empreendimento mais promissor na Rússia, no Ártico, por causa de sanções impostas depois que o país liderado por Vladimir Putin anexou a Crimeia.

Na semana passada, a Exxon anunciou que encerraria seu envolvimento em um projeto de petróleo e gás de 75 anos na Ilha de Sacalina, no extremo oriente russo. A Shell também está em Sacalina, onde é acionista minoritária em um empreendimento de gás natural liquefeito, e também disse que sairia do investimento.

Além delas, a BP também está saindo lentamente da Rússia. Em 2013, ela desistiu de um empreendimento conjunto chamado TNK-BP, que havia firmado com um grupo de empresários russos dez anos antes. A sua participação foi vendida para a Rosneft por US$ 12,5 bilhões em dinheiro e 20% das ações no grupo.

A exceção gritante é a empresa francesa Total Energies, que continuou a investir em projetos de gás natural liquefeito no Ártico russo depois que as sanções da Crimeia foram impostas. A Total Energies também possui quase um quinto da Novatek, uma produtora russa de gás natural que é a principal proprietária das instalações do Ártico. 

A companhia disse recentemente que não investiria em novos projetos na Rússia, mas parece estar se aprofundando nos empreendimentos de GNL – um dos quais não deve começar a produzir até 2023.

 Claro que ainda há a questão de saber se as companhias petrolíferas vão realmente sair. Elas ainda não venderam nada, e se Putin decidir parar a guerra e for redimido, elas podem ser persuadidas a mudar de ideia.

Por outro lado, há poucas razões para pensar que eles fariam anúncios que envolvem bilhões de dólares em investimentos sem considerar cuidadosamente as consequências. Putin e seus aliados acompanham de perto a indústria do petróleo e dificilmente verão com bons olhos empresas e executivos que o abandonaram em um de seus momentos mais difíceis. / TRADUÇÃO DE LUIZ HENRIQUE DA SILVA GOMES


*É CORRESPONDENTE DO ‘NYT’ EM LONDRES, ESPECIALISTA EM ENERGIA E MEIO AMBIENTE

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