Inédito nem tanto, mas corajoso, sim

Ao endossar o recuo de Israel às fronteiras de 1967, Obama reitera posição de seus predecessores desde Lyndon Johson, mas a iniciativa vale pelo destemos de enfrentar o lobby do Likud

Sérgio Augusto,

31 de maio de 2011 | 07h46

Dois anos atrás, discursando no Cairo, Obama prometeu mudar as relações dos Estados Unidos com os muçulmanos do mundo inteiro, mas ficou na promessa e acabou atropelado pelas recentes revoltas populares no Oriente Médio. Numa tentativa de recuperar o atraso e a credibilidade junto aos filhos de Alá, fez há dez dias outro discurso, aliás dois, em casa mesmo, endossando o recuo das fronteiras de Israel até os limites em vigor em 1967 como premissa básica e imperativa para um acerto de paz entre palestinos e israelenses. Houve quem dissesse que nunca um presidente americano ousara ir tão longe na busca de uma solução pragmática para a maior e mais antiga crise no Oriente Médio. Nunca? Exagero.

 

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Na verdade, Obama reiterou a posição de todos os seus predecessores na Casa Branca desde Lyndon Johnson e estabelecida pela Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, nada mais, nada menos. O que Obama propôs há muito é consenso em quase todos os quadrantes, inclusive entre os conselheiros militares mais graduados da atual administração democrata, como os generais James Jones e David Petraeus, que até em público já externaram sua preocupação com a condescendência com que os Estados Unidos desde sempre tratam Israel - uma das causas, aliás, do desencanto que levou David Mitchell a pedir demissão do cargo de enviado especial da Casa Branca no Oriente Médio, que ocupava havia dois anos.

 

Mitchell pediu o boné no dia 14, a apenas cinco dias do discurso de Obama. Ou até aquela data o presidente não se decidira se chamaria Israel na chincha ou, se decidira, preferiu livrar Mitchell de mais uma decepção, pois é certo que Obama não sabe como vai convencer Israel a responder ao salam árabe com um desarmado shalom. Com Benyamin Netanyahu no poder, nada feito.

Mas valeu a iniciativa de Obama. Louve-se o seu destemor de tocar num tabu da direita israelense (o direito aos territórios ocupados militarmente desde 1967) e enfrentar o vale-tudo do influente lobby judaico, que o cientista político John Mearsheimer prefere chamar, mais apropriadamente, de israelense, e outros analistas, de "lobby do Likud" (o partido no qual Netanyahu fez sua carreira política). Judaico só seria se todos os judeus apoiassem incondicionalmente o expansionismo israelense e se em seus quadros não houvesse elementos da apocalíptica direita cristã americana. O nome pode ser irrelevante, mas sua força eleitoral não deve ser negligenciada.

 

Para Mearsheimer, que é de origem judaica e publicou um livro sobre o lobby, o discurso de Obama impressionou pouca gente e não teria irritado somente a linha-dura de Israel e seus apparatchiks na América, mas também os palestinos que não admitem viver no "Estado soberano desmilitarizado" previsto pelo presidente americano, sem meios para defender-se de agressões externas, e tampouco gostaram de ouvi-lo considerar "sem sentido" o reconhecimento do Estado palestino pela Assembleia-Geral da ONU, agendado para setembro. Insuficiente e inconsequente, ou mesmo inútil, talvez sim, mas sem sentido, sei não: o Estado de Israel afinal nasceu de uma resolução (nº 181) da Assembleia Geral da ONU.

 

Afinada com o lobby, parte da imprensa conservadora americana reagiu de forma indecorosa à fala de Obama e ao discurso que Netanyahu fez em Washington nessa semana. Recebido no Congresso com pompas presidenciais, o premier israelense foi aplaudido de pé 29 vezes, 4 a mais que Obama em seu último discurso sobre o Estado da União. Como bateu de frente com a opinião do presidente, ovacioná-lo soou como uma atitude que os republicanos não se furtariam a classificar de "antipatriótica", caso Bush ainda desse as cartas na Casa Branca e, no lugar de Netanyahu, estivesse o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, a contestar uma eventual proposta do colega americano para "deixar tudo como está".

 

Na tribuna e nos corredores do Congresso, assim como diante das câmeras de TV (como de hábito, a Fox News abafou) e nas mídias impressa e eletrônica, um vendaval de leviandades, absurdos e insultos à inteligência. Acusaram Obama de "desrespeitar" e querer "destruir Israel", como se fosse contra os interesses dos Estados Unidos a desocupação da margem ocidental do Jordão pelas forças militares israelenses (é justamente o contrário), tudo num clima de histeria que nem no Reichstag talvez se visse caso Chamberlain tivesse ido até lá, em 1938, solicitar aos alemães que devolvessem os Sudetos aos checos como condição sine qua non para a manutenção da paz na Europa.

Netanyahu cumpriu seu papel. Fez média com os congressistas, gabou-se do apoio bipartidário que desfruta no Legislativo americano e soltou algumas lorotas.

 

Uma: "Vocês não precisam enviar tropas para defender Israel". (Os US$ 3 bilhões anuais de ajuda militar bastam, faltou acrescentar.)

 

Outra: "O povo judaico não é um ocupante estrangeiro na Judeia e Samaria". (Não é isso o que pensa a comunidade internacional.)

 

A certa altura, exortou Mahmoud Abbas a reconhecer diante de seu povo o Estado de Israel (Abbas não só já fez isso como disse que pouco se importava se ao futuro Estado abrigando em paz árabes e judeus dessem o nome de República Socialista Hebraica). Repisando um clichê retórico, o premier comparou o Hamas (movimento nacionalista baseado na Palestina que às vezes apela para o terrorismo) à Al-Qaeda (apátrida organização terrorista internacional "sem endereço fixo"). Já me pus a imaginar qual seria a reação de Netanyahu se Obama ou qualquer outro comparasse o Irgun a Al-Qaeda.

 

Para quem já se esqueceu, eu lembro: o Irgun era uma organização militar nacionalista da qual fazia parte o futuro primeiro-ministro israelense Menachem Begin, que, a exemplo do Hamas, às vezes apelava para o terrorismo. Num atentado à bomba, em Jerusalém, em 1948, o Irgun explodiu 91 pessoas.

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