Inércia como destino

Os resultados do segundo turno das eleições na França, no domingo, confirmaram as lições do primeiro turno, realizado no dia 22: uma formidável bofetada no poder socialista do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, a consolidação do partido Frente Nacional de Marine Le Pen, e a vitória da direita republicana, isto é a União por um Movimento Popular (UMP), de nosso velho conhecido Nicolas Sarkozy, que conseguiu arrancar cerca de 30 departamentos da esquerda.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

31 Março 2015 | 02h05

E assim vimos ressurgir de sua caixa o caro Sarkozy, em ótima forma, remontado como um relógio, cheio de tiques e sorrisos, viperino, eloquente, cômico, inteligente. Cruel. Não se esperaria dele se fazer de modesto. Ele não é desse tipo.

Quando conquista uma vitória, Sarkozy se rejubila, e seu prazer é maior quando pode fazê-lo em público, sobre um palanque. No domingo, o ex-presidente estava em êxtase. Falou um pouco como um cônsul romano no dia de um "triunfo", um pouco como se tivesse acabado de ser eleito presidente da república pela segunda vez.

Sarkozy encheu de água a boca de seus fanáticos com estas frases: "A esperança renasce na França. A alternância está à caminho. Nada poderá pará-la."

A alternância é, evidentemente, a substituição dos socialistas pela direita republicana. Mas é, sobretudo, a substituição de François Hollande por Nicolas Sarkozy porque, com essa vitória, Sarkozy colheu todos os louros e não deixou nenhum para decorar o crânio calvo de seu aliado Alain Juppé, ou o rosto triste de seu outro aliado François Fillon. Não. Todos os louros estão assentados sobre a cabeça do chefe, e o chefe é Sarkozy.

Sarkozy não está errado. Foi sua energia ilimitada, seu talento, sua agressividade que lhe permitiram reconstruir uma direita alquebrada na França.

Ele fica sendo, novamente, o melhor quadro da direita para as eleições presidenciais de 2017 - embora o velho e sábio Juppé, menos direitista e menos nervoso que Sarkozy, conserve trunfos e uma força tranquila.

Esperava-se que o segundo turno de domingo consagrasse a ascensão extraordinária da Frente Nacional, o partido populista de ultradireita de Marine, sucessora de Jean-Marie Le Pen. Ele não teve um retrocesso, mas parou onde estava. Embora tenha conquistado uma quantidade razoável de postos nos departamentos nas eleições, a Frente Nacional não conseguiu conquistar um único deles.

Consolidação. Tanto a direita de Sarkozy quanto os socialistas de Manuel Valls trombetearam que a cavalgada da Frente Nacional havia terminado e seu declínio havia começado. Não é verdade, claro. A Frente Nacional de Marine Le Pen está solidamente instalada na paisagem política francesa; ela está superando os socialistas, o que parecia inverossímil, e tem um futuro promissor.

Os socialistas foram ao chão nesta disputa , e estão com a cara no pó. Eles saem deste último embate num estado lamentável, o nariz esfolado, a roupa do avesso, a gravata amarfanhada, os olhos lacrimejando e rancores contra o mundo inteiro.

Hollande logo fez saber que não alteraria uma vírgula de sua linha política. Os outros o recriminaram: "Como pode, este homem foi desautorizado pelos cidadãos e tudo que ele sabe dizer é que continuará a fazer as mesmas besteiras. Quanto desprezo pelo povo! Quanto desprezo pela democracia!"

Na verdade, mesmo que Hollande quisesse mudar de linha, não poderia. O drama do Partido Socialista é que ele está dividido em duas facções antagônicas: os partidários de Hollande e de seu "socialismo da terceira via" - modelo usado pelo premiê britânico Tony Blair -, que se assemelha como uma gota d'água ao programa da direita, e, do outro lado, a ala esquerda do partido, que continua a sonhar com a luta de classes e se compraz em detestar o mercado, os ricos, os empresários e tudo que é liberal e privado.

Tracionado por estas duas forças contrárias e rígidas, Hollande está condenado, amanhã como hoje, como ontem, a andar sem sair do lugar. A inércia é seu destino. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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