Inevitáveis comparações entre EUA e China

Falta na democracia a determinação da autocracia chinesa

THOMAS L. FRIEDMAN / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

O americano que visita a China, hoje, compara e é comparado. Na abertura do Fórum Econômico Mundial deste ano, em Tianjin, os anfitriões chineses não hesitaram em fazer algumas comparações. A CCTV da China levou ao ar uma paródia que mostrava quatro crianças - uma vestida com a bandeira chinesa, outra com a americana, a terceira com a indiana, e a quarta com a brasileira - preparando-se para competir em uma corrida. Antes da largada, a americana, "Anthony", gaba-se de que ganhará "porque sempre ganha", e dispara à frente. Mas pouco adiante Anthony para com cãibras. "Agora é a nossa chance de ultrapassá-lo pela primeira vez!", grita a criança chinesa. "O que aconteceu com Anthony?", pergunta uma outra. "Está acima do peso e sem fôlego", diz a quarta. "Comeu hambúrgueres demais." É assim que eles nos veem.

Para o visitante americano, as comparações começam desde o momento do embarque de Pequim para Tianjin. A viagem de 120 quilômetros até a estação de trem levou apenas 25 minutos. Dali, fomos de carro até o Centro de Convenções Meijiang de Tianjin, um edifício tão gigantesco e belo que, se estivesse em Washington, seria uma atração turística. Nossos anfitriões nos informaram: "Foi construído em nove meses." Eu sei, eu sei. Com uma moeda desvalorizada, mão de obra e capital suficiente - além de autoritarismo - é possível construir qualquer coisa em nove meses. No entanto, chama a atenção.

Alguns de meus amigos chineses me recriminaram por idealizar demais a China. Retruquei: "Concordo." Mas não se enganem. Não estava elogiando a China porque quero emular o seu sistema, e sim porque estou preocupado. Destacando o impressionante motor do crescimento da China, espero acender uma centelha sob os EUA.

Estudar a capacidade deste país de investir no futuro não me leva a achar que nosso sistema está errado, mas que estamos maltratando nosso sistema, que, entretanto, é o certo. Não há absolutamente nenhum motivo para que a democracia dos EUA não possa criar a determinação, a legitimidade, a unidade e perseverança para realizar, de maneira democrática, os grandes feitos que a China realiza de maneira autocrática. Isso já foi feito. Não fazemos agora por causa de uma classe política corrupta, negativamente partidária, mais interessada no que a mantém no poder do que no que poderia tornar os EUA novamente poderosos, mais interessada em derrotar o colega do que em salvar o país.

"Como vocês podem competir com um país administrado como uma empresa?", perguntou um empresário indiano a respeito da China. E, respondendo à própria pergunta, acrescentou: "Para que a democracia seja eficiente, adote políticas e infraestruturas, nossas sociedades precisam de que o centro político se proponha um objetivo, esteja unido e invista todas as suas energias nele. Isto significa eleger os candidatos que farão o que deve ser feito pelo país, não apenas para seu grupo ideológico, ou por quem quer que lhes ofereça o maior saco de dinheiro."

Para que as democracias resolvam seus problemas é preciso que muitas pessoas façam força na mesma direção, e é isso mesmo que falta. "Não estamos preparados para agir exclusivamente com a nossa força", disse meu amigo indiano. "Portanto, esperamos que eles (os chineses) fracassem por causa de sua fraqueza."

E eles fracassarão? O sistema chinês é autocrático, excessivamente corrupto e pouco à vontade com a economia do conhecimento, que exige liberdade. Entretanto, a China também tem uma rotatividade normal do poder no topo e costuma promover as pessoas com base no mérito, por isso, em geral, o funcionário de alto escalão é muito competente.

Orville Schell, da Asia Society, uma das maiores agências americanas que acompanham o desempenho da China, observou: "Como começamos há pouco a nos considerarmos incapazes de fazer o que tem de ser feito, tendemos a considerar com certa ansiedade a China idealizando-a. Vendo o que os chineses realizaram, projetamos neles aquilo que falta tremendamente em nós mesmos" - a atitude que nos leva a ousar fazer, custe o que custar, que construiu nossas estradas, nossos diques e colocou um homem na Lua.

"Foram estes os marcos históricos da cultura da nossa infância", disse Schell. "Mas agora vemos nosso país transformar-se no contrário, enquanto a China se anima com aquela mesma energia. Não estou idealizando o sistema de governo da China. Não quero viver em um sistema autoritário, mas me sinto impelido a olhar a China de uma maneira objetiva e a reconhecer os sucessos deste sistema." Isto não significa defender que devamos nos tornar como a China. Significa sentir vivamente o desafio que está diante de nós, e encontrar formas de cooperação com a China. "A própria noção ultrapassada de que indiscutivelmente continuamos sendo os maiores é extremamente perigosa", acrescentou Schell. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR

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