Inflação de eleições desanima israelenses

Não falta trabalho, em Israel, para consultores políticos, diretores de propagandas eleitorais e distribuidores de santinhos. Na terça-feira, os israelenses vão às urnas pela quinta vez em dez anos para eleger um primeiro-ministro. Em uma década, passaram pelo cargo o linha-dura Benjamin Netanyahu, o trabalhista Ehud Barak e o falcão Ariel Sharon, eleito duas vezes. Sem contar o atual primeiro-ministro interino Ehud Olmert, no posto desde o derrame cerebral que incapacitou Sharon, há menos de três meses. A inflação de eleições talvez ajude a explicar o desânimo dos cerca de 5 milhões de eleitores israelenses às vésperas de mais uma votação para definir a composição do Knesset (o Parlamento, com 120 cadeiras). É quase certo que Olmert, pupilo e ex-braço direito de Sharon, seja ungido como novo primeiro-ministro à frente do recém-criado partido de centro Kadima. Mas, num país onde, desde sua criação (em 1948), 9 dos 16 governos caíram antes do tempo, é provável que o dinamismo político não dê tréguas. Muita coisa mudou desde as últimas eleições, em 2003. Israel se retirou da Faixa de Gaza após 37 anos de ocupação, Yasser Arafat morreu, o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas e Ariel Sharon entrou em coma no auge da popularidade. O surgimento do Kadima, em novembro, acabou com o tradicional bipartidarismo israelense, enfraquecendo tanto o Likud, de direita, quanto o Partido Trabalhista, de esquerda. Mas uma coisa se mantêm inabalável nas eleições israelenses de 2006. Apesar da tentativa do novo líder trabalhista, Amir Peretz, de enfatizar assuntos socioeconômicos como pobreza, aumento do salário mínimo e desemprego, o tema mais importante para partidos e eleitores continua sendo a segurança nacional e o relacionamento com os palestinos. É em torno desse assunto que as legendas israelenses continuam se alinhando à esquerda ou à direita no espectro político. "É a segurança, estúpido!", brincam analistas políticos locais, parafraseando o mitológico consultor político americano James Carville. Futuro da Cisjordânia A votação é quase um plebiscito: deixar ou não a Cisjordânia, região ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e onde vivem cerca de 250 mil colonos judeus em meio a 2,5 milhões de palestinos? Eis a questão. Há quase quatro décadas, a região é palco de uma disputa territorial e ideológica que já causou milhares de mortes e ecoa por todo o planeta. Depois de anos de negociações de paz fracassadas, Olmert, à frente de Kadima, propõe uma solução: a exemplo do que já aconteceu na Faixa de Gaza, Israel abandonaria de maneira unilateral a maior parte do território até 2010, desmantelando assentamentos judaicos isolados e traçando as fronteiras definitivas entre Israel e a Autoridade Palestina. Olmert planeja agrupar os colonos em volta dos três maiores blocos de assentamentos da região (Maale Adumim, Ariel e Gush Etzion) e de Jerusalém. Isso abriria caminho para que Israel removesse soldados e civis do resto do território, cortando laços com os palestinos e garantindo maioria judaica numa Israel mais enxuta e sem tanta desaprovação internacional. O chamado Plano de Agrupamento é revolucionário num país onde a colonização de toda a "Terra Prometida" é o sonho de setores ultranacionalistas. Mas, surpreendentemente, a proposta agradou a muitos israelenses, que têm demonstrado não temer a entrega de territórios em troca da esperança de diminuir o terrorismo palestino, responsável pela morte de mil israelenses desde 2000. Segundo as pesquisas de intenção de voto, o Kadima está na liderança, com pouco menos de um terço dos votos (35 cadeiras, revela pesquisa do jornal Yediot Aharonot). Apesar de ser considerada uma generosa proposta territorial, o plano do Kadima enfrenta uma miríade de críticas da esquerda israelense e dos palestinos. O tradicional partido pacifista Meretz, por exemplo, reclama do unilateralismo do plano, que ignora qualquer tipo de negociação com a liderança palestina, principalmente depois da subida ao poder dos radicais do Hamas. Partidos menores que representam a minoria árabe em Israel (quase 20% da população) também rejeitam a arrogância de Olmert ao propor o desenho de fronteiras sem negociar com os vizinhos. A mesma reclamação é compartilhada pelo atual segundo maior partido de Israel, o Trabalhista, que deve conseguir 21 cadeiras no Knesset. Não que Amir Peretz sugira conversações com o Hamas (nenhum partido judaico israelense prega relações com o grupo islâmico até que ele reconheça o direito de existência de Israel e abandone a luta armada). Mas Peretz é a favor de contatos políticos com o moderado presidente palestino Mahmud Abbas, líder da Fatah, partido que reconhece e deseja negociar com Israel. Abbas, por sua vez, quer a devolução de toda a Cisjordânia, seguindo as linhas de 1967 e não a fronteira artificial traçada pelo polêmico muro que está sendo construído ao redor de colônias judaicas na região. Apesar de ter demonstrado simpatia por Olmert nessas eleições, o presidente palestino também exige a devolução de Jerusalém Oriental, onde vivem 200 mil árabes, permitindo que a cidade seja a capital da futura Palestina. Isso sem contar a negociação imediata sobre o direito de retorno dos cerca de 4 milhões refugiados palestinos espalhados pelo mundo. O Hamas repudia qualquer proposta israelense. Para o grupo radical, a devolução da Cisjordânia é um passo muito pequeno diante do cenário preferido pelos futuros primeiro-ministro Ismail Haniye e o chanceler Mahmud A-Zahar: a aniquilação do Estado de Israel. O Plano de Agrupamento também não passa pela goela da direita israelense. Netanyahu prega a manutenção da ocupação israelense da Cisjordânia apelando para argumentos de segurança nacional: qualquer "concessão territorial", neste momento, seria como um prêmio para o Hamas. Para Netanyahu, a Cisjordânia se transformaria, assim como a Faixa de Gaza, no "Hamastão". Apesar do esforço de Netanyahu para atemorizar os eleitores, o Likud deve ser o grande perdedor destas eleições. Terá de se contentar, segundo a previsão do Yediot Aharonot, com 14 cadeiras na Knesset, bem menos que as 38 obtidas em 2003, sob a liderança de Sharon. Uma humilhação para o partido que praticamente domina a política israelense há 30 anos. Mas o Likud não é o único - e nem o mais radical - partido de direita. Colonos irados com a retirada de Gaza se uniram num bloco nacionalista religioso que deve fazer pelo menos dez assentos na Knesset. Seus partidários prometem fazer de tudo para evitar a retirada de mais colônias, numa oposição mais violenta do que a demonstrada há dois meses, na retirada de Gaza. Mas o sucesso do Kadima prova que os israelenses deixaram para trás o ranço ideológico em busca de soluções pragmáticas para o conflito com os palestinos.

Agencia Estado,

26 Março 2006 | 17h52

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