Andrea Mantovani/The New York Times
Andrea Mantovani/The New York Times

Inflação eleva custo da baguete e outros alimentos nos mercados de Paris

Lojistas e consumidores começam a sentir o aumento da inflação na Europa; muitos se preparam para mais ajustes dos preços no ano-novo

The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2021 | 05h00

PARIS - No Marché d'Aligre, um movimentado mercado de comida e antiguidades ao ar livre no bairro da Bastilha, no centro de Paris, Mohamed Sharif pegou um pedaço de giz e, relutantemente, aumentou o preço das perfumadas laranjas de Valência que vende para multidões de compradores.

Os custos de transporte dos produtos importados para a França mais do que dobraram desde setembro em meio ao aumento nos preços da gasolina, disse ele, um dos vários fatores que elevaram os custos no atacado de laranjas da Espanha, lichia do sul da China e maracujá do Vietnã. E, por consequência, os preços que ele deve cobrar em sua barraca de frutas.

“Os clientes não entendem por que estão tendo de pagar mais pelo que compram”, disse Sharif, cobrando por um quilo de laranjas em um fim de semana recente € 1,90 (cerca de R$ 12), ante aos € 0,80 na semana anterior. “As pessoas estão comprando menos porque os custos estão subindo.”

Os preços da carne em um açougue próximo subiram 10% desde o meio do ano. Espera-se que os de alguns queijos franceses aumentem 20% até o ano-novo. Até a baguete tradicional, um alimento básico da dieta francesa, ficará mais cara, dizem os padeiros.

A inflação, relativamente baixa na Europa por quase uma década, está começando a se fazer sentir à medida que os altos preços da energia, a escassez de mão de obra e os gargalos nas cadeias de abastecimento são criados com o fim de bloqueios na pandemia do coronavírus.

Um aumento anual recorde nos preços, para 4,9% na zona do euro no mês passado, está afetando os negócios, as fábricas e o comércio da Europa. Mas as pessoas que tentam colocar comida na mesa também estão começando a ter dificuldades para chegar ao fim do mês.

O Banco Central Europeu já havia insistido que o aumento seria temporário. Mas, na semana passada, o banco foi obrigado a elevar sua projeção de inflação para 2022 de 1,7%, feita em setembro, para 3,2%, em meio a sinais de que a alta dos preços não será tão transitória quanto se pensava.

Barateiros

Isso dificilmente surpreende os habitués do Marché d'Aligre, o mercado de alimentos mais antigo de Paris, fundado em 1779. Mantido por gerações de lojistas, o mercado é um reflexo da própria cidade, atraindo famílias de baixa renda, de renda média e gastrônomos abastados que procuram produtos frescos, queijos, especiarias e pechinchas no mercado de pulgas.

Os vendedores de frutas e vegetais ao ar livre são conhecidos como os mais barateiros de Paris e se esforçam para manter preços acessíveis para produtos básicos como tomates e batatas, independentemente do clima econômico, disse Rémy Costaz, cuja família opera uma mercearia desde 1905.

Mas os custos de uma ampla variedade de produtos, de carne de porco a maracujá, aumentaram com o salto da inflação. Entre os donos de barracas do mercado e compradores de renda modesta, o impacto já está sendo sentido. E muitos estão se preparando para o pior.

No extremo sul do mercado, onde os vendedores de alimentos com desconto estão em ambundância, as pessoas carregando sacolas de compras se aglomeraram em torno de La Petite Affaire, um minimercado que vende laticínios, frios e outros alimentos perto da data de vencimento por menos da metade do preço.

Hicham El Aoual, de 27 anos, abriu uma mala para revelar as suas compras: suco de laranja, iogurte e outros produtos básicos que lhe custaram € 15 euros. Atualmente, disse, ele tenta evitar os grandes supermercados franceses, onde o preço da mesma cesta de produtos é quase o dobro.

El Aoual, que trabalhou no setor imobiliário e como auditor interno para grandes redes de supermercados, disse que os custos mais altos de transporte, energia e armazenamento aumentaram constantemente o que as pessoas pagam pelos mantimentos desde que os governos acabaram com os bloqueios de pandemia.

“O problema é que os preços estão subindo, mas os salários não”, disse El Aoual, acrescentando que não recebe aumento há três anos. “Tenho um orçamento apertado, é difícil economizar e tenho de fazer compras na loja de descontos.”

Nem todo mundo está sentindo o aumento dos preços da mesma forma. Dentro do Marché Beauvau, o histórico mercado coberto do Marché d’Aligre, com açougueiros, peixarias e vendedores de queijo e aves de alta qualidade, os clientes estavam de olho em capões, ostras e trufas para o feriado.

Florian Bocciarelli, que dirige a Boucherie du Marché d’Aligre, como seu pai e seu avô antes dele, sorriu sob o brilho das luzes do Natal enquanto embrulhava um pote de vidro de € 44 de foie gras para um cliente.

Alternativas

No entanto, na maioria das vezes, disse Bocciarelli, seus clientes estão cada vez mais comprando produtos como a carne de porco, que é mais barata do que outras carnes. Desde o meio do ano, o salto no preço dos cereais, soja, milho e trigo usados ​​na alimentação dos animais elevou o preço do bife, da vitela e do cordeiro em média 10%.

“As pessoas estão sendo mais cuidadosas com seu consumo”, disse ele. “Ninguém está realmente esperando que os preços voltem a cair."

O pão francês também não está sendo poupado. Na Farine+O, uma padaria artesanal, o preço de uma baguete tradicional deve subir até € 0,10 no ano-novo, disseram Charlotte Noel e Adriana Ostojic, funcionários que vendiam ativamente os pães e doces da loja para um grupo de clientes. A alta deve se repetir pelas padarias do país, onde o preço da baguete pode variar atualmente entre € 1 e € 1,20.  

Os preços do pão desempenham um papel importante na história da França. Depois que a escassez de pães ajudou a acender a Revolução Francesa, o governo fixou preços para garantir que o produto continuasse acessível para todos. 

Esses regulamentos terminaram em 1986, mas as padarias tentarão repassar os custos crescentes para produtos como o brioche antes de tocar na baguete sagrada. 

Isso se tornou mais difícil em meio ao aumento dos preços do trigo e ao aumento das contas de eletricidade dos fornos dos padeiros. "Quando o custo de uma baguete aumenta, não há dúvida de que afeta as pessoas", disse Noel.

Na peixaria Les Frangines d'Aligre, o caos com a saída do Reino Unido da União Europeia também empurrou os preços para cima. Uma guerra comercial de pesca entre a França e o Reino Unido aumentou em 40% o preço do escamudo e de outros peixes de águas disputadas, disse Christine Divenzo, a proprietária. “Tudo é mais caro”, disse ela.

“Isso está acontecendo em todo o mundo”, acrescentou Hassan, o peixeiro da loja, recusando-se a fornecer seu sobrenome. “O resultado é que os ricos estão ficando muito ricos e os pobres cada vez mais pobres”, disse ele. “Basta olhar para as sopas ao redor de Paris, onde as filas são mais longas do que nunca.”

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