Inflação 'maquiada' afasta sindicatos de Cristina

Análise: Daniel Cancel / Bloomberg News

É CHEFE DE SUCURSAL EM BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h07

A recusa de Cristina Kirchner em admitir a real taxa de inflação na Argentina encurrala seu governo, no momento em que a líder encarou pela primeira vez uma greve nacional organizada pelos principais sindicatos do país, sua base de poder original. Enquanto os salários têm crescido nos últimos anos, juntamente a uma inflação anual estimada por analistas independentes em 25%, o governo não suspendeu os impostos cobrados sobre rendas mais baixas - e a presidente insiste que o aumento de preços verdadeiro ronda os 10%.

Cristina viu sua popularidade cair drasticamente desde que ganhou de lavada a votação que a reelegeu, em outubro de 2011, enquanto o crescimento do país empacou, o poder de compra da população diminuiu e o desemprego atingiu o maior índice nos últimos dois anos. Juntamente ao crescimento estagnado, a incapacidade do governo em conter os preços em ascensão ocasionou um salto de 75% no déficit de seu orçamento no terceiro trimestre de 2012, em comparação com o mesmo período de 2011. Os custos dos empréstimos na Argentina estão entre os mais altos dos países de economia emergente. "O desafio subliminar dos últimos cinco anos tem sido a alta inflação e a maneira como lidar com isso", afirmou Daniel Volberg, economista da Morgan Stanley. "Eles não lidaram com isso e o que vemos agora é a combinação de uma diminuição no crescimento econômico aliada a uma inflação ainda alta - o que, basicamente, resulta na elevação da tensão social."

As dúvidas dos economistas locais e do FMI sobre a veracidade do índice oficial de inflação argentino se intensificaram desde que Néstor Kirchner substituiu a equipe responsável pelo relatório mensal, em 2007. Desde então, os números oficiais da inflação argentina, em média, têm sido estimados em menos da metade dos índices calculados por economistas independentes - e divulgados por parlamentares do país. No ano passado, o governo de Cristina multou mais de uma dezena de pesquisadores econômicos em até US$ 125 mil acusando-os de não aplicar a metodologia correta em seus cálculos. Em setembro, a diretoria do FMI deu até 17 de dezembro para a Argentina responder sobre a qualidade de seus dados econômicos. Em 2011, o país foi o único membro do G-20 a não permitir que o FMI analisasse sua economia.

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