EFE/ Juan Ignacio Roncoroni
EFE/ Juan Ignacio Roncoroni

Inflação na Argentina ameaça o tradicional churrasco

Em um ano, consumo interno de carne bovina caiu 9,2%; antropólogo vê abalo no 'orgulho cultural' do país

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 11h37
Atualizado 02 de agosto de 2019 | 12h11

BUENOS AIRES - A recessão que assola a Argentina impactou o dia a dia de sua população em muitos níveis, entre eles a capacidade de saciar seu apetite carnívoro, já que o preço da carne se transformou em um obstáculo para um dos rituais mais sagrados do país: o churrasco.

A carne bovina argentina, que goza de grande fama internacional por sua qualidade, tem um custo cada vez mais proibitivo para os moradores do país devido à enorme inflação que assola sua economia, principalmente desde abril de 2018.

Neste cenário, as reuniões ao redor da churrasqueira em uma refeição familiar ou na varanda de um amigo para conversar e degustar os cortes típicos da iguaria não conseguiram escapar do 'terremoto' econômico.

"A proporção da venda de carne de churrasco diminuiu muito. Se antes (os argentinos) comiam um churrasco todos os finais de semana, agora vão comer a cada mês ou dois meses, o que for possível", afirmou Alberto Williams, presidente da Associação de Proprietários de Açougues de Buenos Aires.

Segundo a pesquisa de supermercados de maio do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) da Argentina, o custo da carne em relação ao mesmo período do ano anterior aumentou 67,1%, o que o transforma no grupo alimentício que mais encareceu.

Para entender a magnitude deste número, nesse mesmo intervalo de tempo o salário da população só aumentou 38,5%, uma perda de poder aquisitivo que lhe afasta de uma experiência que vai além do seu valor nutricional.

"É uma refeição que envolve uma reunião social quase que essencialmente. De fato, me lembro que uma vez fiz um churrasco só pra mim e me senti culpado", declarou Diego Díaz, antropólogo especializado em alimentação.

Para Díaz, existe uma necessidade de estar com outras pessoas e compartilhar "não só um pedaço de carne, mas experiências, sentimentos, ideias, discussões, debates, risos e brincadeiras".

"Isso foi incorporado ao acervo cultural. É, de algum modo, como o tango, o mate e o futebol", descreveu.

O relatório de junho da Câmara de Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da República Argentina (Ciccra) indica que, em um período de 12 meses, o consumo interno de carne bovina passou de 58,2 quilos ao ano per capita a 52,9 quilos, 9,2% a menos.

Com esta conjuntura, os argentinos estão começando a ampliar seus "alvos" e a saciar seus instintos carnívoros com outros tipos de animais.

"Hoje na Argentina já não há exclusivamente carne bovina em uma grelha. Normalmente há carne bovina, suína e até mesmo frango, não é mais um churrasco de uma só carne", afirmou Miguel Schiaritti, presidente da Ciccra.

Williams ressaltou que outra estratégia que seus clientes seguem para não privar-se do churrasco é optar pelos cortes mais econômicos e pelos que "rendem mais", enquanto pensam duas vezes na hora de escolher peças tradicionais que têm mais gordura ou ossos.

Para escapar desta queda do consumo, a indústria de carne se apoia nas vendas internacionais e, concretamente, no mercado chinês, receptor de 7 de cada 10 quilos de produto exportado.

Desde que a Ciccra tem registros (em 1996), a balança comercial do primeiro semestre do ano nunca tinha ficado tão inclinada para a exportação, com 22,9% da produção bovina total destinada ao consumo externo.

"Se as exportações continuarem aumentando de maneira significativa e, ao invés de 20%, forem 40%, seguramente haverá algum efeito sobre o mercado interno", advertiu o presidente da câmara industrial.

Assim surge a ameaça de mias um possível empecilho para que os argentinos desfrutem de um dos seus rituais mais tradicionais, enquanto o país vive sua particular época de vacas magras.

"Do ponto de vista nutricional, o assunto nem chega perto de ser grave. Não se trata disso, é mais uma questão de orgulho cultural, é quase como ser desclassificado nas oitavas de final de uma Copa do Mundo", exemplificou Diego Díaz. / EFE

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