AFP PHOTO / POOL / JORGE SILVA
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Influência dos EUA definha com Trump

Visita à Ásia esconde o fato de que os EUA se voltaram para si mesmos, prejudicando seus cidadãos e o mundo

The Economist, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 03h00

Há cerca de um ano, Donald Trump foi eleito presidente. Muitas pessoas previram que a política externa americana daria uma virada desastrosa. Trump insinuou que ia eliminar acordos comerciais, abandonar aliados, metaforicamente “jogar uma bomba” sob a ordem global com base em regras e lançar outras, literalmente ao acaso. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) era “obsoleta”. O Nafta foi “talvez o pior acordo comercial jamais feito” e os EUA eram bons demais com os estrangeiros. “Antigamente, se alguém ganhasse uma guerra, ganhava uma guerra. Mantinha o país”, opinou, acrescentando que “bombardearia essa droga de” Estado Islâmico (EI) e “ficaria com o petróleo”.

Até agora, a política externa de Trump foi menos terrível do que o prometido. É verdade que ele excluiu os EUA do Acordo de Paris, dificultando os esforços contra as mudanças climáticas, e abandonou a Parceria Trans-Pacífico (TPP), um grande acordo comercial. No entanto, ele não se refugiou confusamente no isolacionismo. Não saiu da Otan. Na verdade, alguns de seus aliados da Europa Oriental preferem sua fala dura à fria neutralidade de Barack Obama. Não iniciou nenhuma guerra. Intensificou a defesa dos EUA ao sitiado governo afegão e ajudou o Iraque a recapturar cidades em poder do EI. Nas partes do mundo às quais se presta pouca atenção, como a África, sobrevive no piloto automático com um mínimo de funcionários, uma versão da política do governo anterior. E como Trump faz uma visita de 12 dias à Ásia, é difícil considerá-lo um homem totalmente desvinculado do mundo.

Muitas pessoas se tranquilizam em saber dos militares sensatos e capazes que o cercam. Tanto seu chefe de gabinete, quanto o secretário de Defesa e seu assessor de Segurança Nacional entendem os horrores da guerra e vão impedir que ele tome uma atitude precipitada, segundo essa argumentação. Os otimistas até mesmo especulam que ele poderia imitar Ronald Reagan, com uma reforma radical nas instituições diplomáticas, restaurando o poder militar dos EUA e projetando tal força para o exterior, que uma Coreia do Norte assustada e submetida a intensa pressão se desintegraria como a União Soviética. Outros preveem com segurança que, mesmo que cause danos no curto prazo para a posição dos EUA no mundo, Trump será derrotado em 2020 e as coisas voltarão ao normal.

Reagan, ele não é

Tudo isso é confundir o desejo com a realidade. Em questões de segurança, Trump evitou alguns erros terríveis. Ele não iniciou uma desnecessária disputa com a China sobre o status ambíguo de Taiwan, como já ameaçou fazer. O Congresso e o escândalo de pirataria nas eleições o impediram de negociar os termos de um acordo com Vladimir Putin, que poderia ter deixado os vizinhos da Rússia à mercê do Kremlin. E ele aparentemente persuadiu a China a exercer um pouco mais de pressão sobre a Coreia do Norte para fazer o regime deixar de expandir seu arsenal nuclear.

No entanto, ele cometeu alguns erros graves como, por exemplo, sabotar o acordo com o Irã para limitar sua capacidade de fazer bombas nucleares. E seus instintos são abomináveis. Imagina não ter nada a aprender com a história. Ele se entusiasma com homens fortes, como Putin e Xi Jinping. Seu amor aos generais é equiparado ao desdém pelos diplomatas – ele esvaziou o Departamento de Estado, perdendo uma grande quantidade de embaixadores experientes. Seus tuítes não são brincadeira: ele sabota e contradiz seus funcionários sem aviso prévio, e faz ameaças irresponsáveis contra Kim Jong-un, cuja paranoia não precisa de incentivo. Além disso, Trump ainda não foi testado em uma crise. Os generais sensatos podem aconselhá-lo, mas ele é o comandante-chefe, com um temperamento que inquieta da mesma forma amigos e inimigos.

Quanto a comércio, ele permanece ligado a uma visão de mundo de querer ser vitorioso num jogo onde não há vencedores, em que os exportadores “ganham” e os importadores “perdem”. Serão perdedores os compradores de roupas e bolsas de marca da Ivanka Trump, fabricados na Ásia?

Trump deixou claro que prefere os acordos bilaterais sobre os multilaterais, porque dessa forma um grande país como os EUA pode intimidar os pequenos para que façam concessões. O problema com essa abordagem tem duas vertentes. Em primeiro lugar, é profundamente desinteressante para os países pequenos, que por sinal, ainda têm de contornar os lobbies protecionistas. Em segundo lugar, isso estimularia a salada insanamente complicada de normas nas quais o sistema de comércio multilateral foi criado, para simplificar e agilizar. A equipe de Trump provavelmente não fará grande esforço para tumultuar o comércio global até que a reforma fiscal tenha sido aprovada no Congresso. Mas quando isso acontecer – se acontecer ( todas as apostas valem) – o Nafta ainda estará em grave perigo.

Ideias têm importância

Talvez o maior dano de Trump seja ao poder de persuasão americano. Ele despreza abertamente a noção de que os EUA devem defender valores universais tais como a democracia e os direitos humanos. Ele não só admira ditadores, faz elogios explícitos à violência, como o assassinato em massa de suspeitos de crimes nas Filipinas. Faz isso não por falta de tato diplomático, mas aparentemente por convicção. Isso é novo. Os presidentes americanos anteriores apoiaram os déspotas por razões de pragmatismo da Guerra Fria. “Ele é um bastardo, mas é nosso bastardo”, como Harry Truman teria dito de um tirano anticomunista na Nicarágua. Já a atitude de Trump mais parece: “Ele é um bastardo. Excelente!”

Isso afasta os aliados liberais dos EUA, na Europa, Ásia Oriental e além. Incentiva os autocratas a comportarem-se pior, como na Arábia Saudita semana passada, onde os dramáticos expurgos políticos do príncipe herdeiro receberam as bênçãos de Trump. Isso torna mais fácil para a China declarar antiquada uma democracia de estilo americano e mais tentador para outros países copiar o modelo autocrático da China.

A ideia de que as coisas voltarão ao normal depois de um único mandato de Trump é muito otimista. O mundo segue em frente. Os asiáticos elaboram novos laços comerciais, muitas vezes centrados na China. Os europeus calculam como se defender caso não possam confiar no Tio Sam. E a política americana se volta para si mesma: republicanos e democratas são agora mais protecionistas do que eram antes do triunfo eleitoral de Trump.

Apesar de todas suas falhas, os EUA têm sido a maior força para o bem no mundo, defendendo a ordem liberal e oferecendo um exemplo de como a democracia funciona. Tudo isso está em risco, em razão de um presidente para o qual os países fortes cuidam apenas de si mesmos. O “EUA em Primeiro Lugar” torna seu país mais fraco e põe o mundo em pior situação. / Tradução de Claúdia Bozzo

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CLAUDIA BOZZO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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