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Influências de Putin

Vladimir Putin continua a fazer os ocidentais de tolos. Os reduziu a espectadores, condenados a contar o número de balas por cima da sua cabeça e às vezes a gritar de medo ou de admiração, como fazem as crianças levadas para assistir a uma queima de fogos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2014 | 02h06

Um dia acreditam que Putin mobilizará seus tanques e consumar sua vitória. Noutro ele estende a mão, ruge para os pró-russos de Donbasse e diz que a única coisa importante será a eleição presidencial na Ucrânia dia 25. Os ocidentais alegram-se, mas então Putin vai à Crimeia, onde organiza um triunfo "à la romana", com velhos e gordos generais, peito repleto de medalhas e navios de guerra em fila no Mar Negro.

Nas chancelarias, repete-se que Putin é um "jogador de xadrez". Isso é falso. Um jogador de xadrez respeita regras. Putin fabrica as suas. Por isso é escorregadio como uma enguia - uma enguia imoral, mas uma enguia.

Nas bibliotecas, examinam-se os tratados clássicos de estratégia. A primeira ideia foi estudar Napoleão, mas não há nada mais enganador. Napoleão foi um gênio especializado em canhões, sangue e a guerra absoluta. Ele alimentará a obra do maior teórico ocidental de estratégia, Carl von Clausewitz, defensor da guerra total.

Clausewitz portanto não serve. Então foi exumada a obra de outro estrategista, o chinês Sun Tsu, que viveu cinco séculos antes de Cristo. Em sua célebre obra A Arte da Guerra, Sun Tsu afirma que a habilidade suprema do soldado é "vencer sem combater". De fato, Putin manifestou uma prudência extrema nas provocações. Colocou 40 mil homens a 100 quilômetros da fronteira da Ucrânia. E 15 mil soldados apenas nos 10 quilômetros próximos da fronteira.

Caças russos jamais sobrevoaram o espaço aéreo ucraniano, mas passaram pela tangente como dizem os pilotos. Quando os americanos anunciaram o envio para a Polônia de quatro guarnições de soldados, Moscou respondeu mobilizando um batalhão de paraquedistas no enclave russo da ex-Leningrado, entre a Polônia e a Lituânia. A estratégia deu certo. Putin não apenas se apoderou, de passagem, da Crimeia, mas também, depois de alguns dias, fragilizou a unidade da Ucrânia.

Isso também deu resultado em termos de opinião pública. A chanceler Angela Merkel uniu-se à França para exigir novas sanções, mas a população resiste. Apenas um em cada três alemães aprova um reforço das sanções contra a Rússia. E 39% dos alemães preferem a negociação. E face à habilidade de Putin, para 51% dos alemães o Ocidente não tem sangue frio e forças para conter o avanço russo.

Pelo menos no momento, a Rússia aplica literalmente os conselhos estratégicos de Sun Tsu, incluindo o preceito com base sobre o qual o chinês resumiu a sua doutrina: "A arte da guerra é a arte do engano". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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