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Informantes sírios fazem estatística da guerra civil

Grupo de observadores associado aos rebeldes diz ter buscado o equilíbrio depois que insurgentes passaram a cometer atrocidades

Lourival Sant'Anna, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2013 | 02h07

BEIRUTE - Toda a mídia na Síria obedece ao regime. Poucos jornalistas estrangeiros recebem visto de entrada no país, por no máximo dez dias, e têm seus movimentos controlados por funcionários do Ministério da Informação. Nesse ambiente, o Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma rede de 300 informantes espalhados por todo o país, é a grande fonte de informação da guerra civil.

Criado em meados de 2011, quando o regime sírio era o único autor de atrocidades, o Observatório surgiu como um meio de oposição ao governo, lembra Sami Haddad, representante da rede em Beirute. Na medida em que grupos rebeldes também passaram a violar os direitos humanos, a posição do Observatório se equilibrou e agora ele procura se manter isento. Hoje, é a principal fonte de informação das agências de notícias, da ONU e dos grupos de defesa de direitos humanos.

Seu grande trunfo, além da rede de 300 colaboradores, é seu protocolo de verificação. Para que uma morte seja informada, é preciso ter o nome, a data, o lugar e as circunstâncias. Com isso, o Observatório evita veicular boatos plantados, que são comuns em um conflito como o da Síria. As fontes dos colaboradores do Observatório são profissionais de saúde e moradores - incluindo eles próprios.

Os colaboradores são selecionados por Rami Abdul Rahman, um sírio de 42 anos, que deixou o país há 13 e mora em Coventry, na Inglaterra. A rede é resultado de contatos que ele cultiva desde a juventude, quando organizava protestos contra o governo. "Uma vez contratados, os ativistas ficam na rede, não são trocados", diz Haddad. "O principal critério não são as habilidades, mas a confiança." Na Inglaterra, Abdul Rahman é assessorado por advogados especialistas em direitos humanos.

Há cerca de um ano, governos da União Europeia passaram a doar dinheiro para o Observatório, que, no entanto, não lhes dá acesso à extensa documentação reunida diariamente, assegura Haddad. Essa ajuda permitiu a Rahman pagar - ainda que pequenas quantias - à maioria dos 300 colaboradores, e também adquirir telefones via satélite.

Ele critica a falta de seriedade de outras fontes de informações da guerra civil, como os Comitês de Coordenação Local e a Rede Síria de Direitos Humanos, que surgiu como dissidência do Observatório. "Eles exageram, não são objetivos", observa Haddad. Ele conta que, na manhã do massacre com armas químicas em Ghouta, dia 21 de agosto, ligou o computador às 7 horas. O ataque tinha acontecido às 6 horas e já se falava em 400 mortos, e a cada hora aumentava duas centenas: 600, 800, 1.000. "Pela minha experiência no Observatório, sei que não é possível documentar tantas mortes em tão pouco tempo."

Aos 20 anos, Haddad estuda ciência política na Universidade Americana-Libanesa. Pensa em seguir carreira na área de defesa dos direitos humanos. Haddad, que é contra a guerra e diz que só pode haver solução política para o conflito na Síria, fica com os olhos marejados ao falar da situação do seu país. "Passo o dia inteiro transcrevendo relatórios e geralmente lido com as mortes como se fossem apenas números", diz ele. "Mas, de vez em quando, me dou conta de que estou lidando com pessoas." Todos os dias, o Observatório anuncia o total de mortos da véspera.

No dia que conversou com o Estado, houve 179 mortos. Foram registradas 110 mil mortes desde o início do conflito, segundo o dado da ONU - com base na contagem do Observatório.

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