Inglaterra é destino de migrantes por legislação menos restritiva

As condições miseráveis de abrigo nos acampamentos de Calais são um fator a mais a levar os estrangeiros a arriscar suas vidas, tomar trens em movimento no Eurotúnel e tentar ultrapassar o Canal da Mancha, chegando à Grã-Bretanha. Mas não são as únicas.

CALAIS; FRANÇA; Canal da Mancha, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2015 | 02h04

Entre as outras razões dadas pelos migrantes estão a língua, a presença de parentes e conhecidos em Londres e arredores e a suposta perspectiva de mais facilidade na obtenção do status de refugiado ou asilado. Além disso, a inexistência de carteira de identidade na legislação britânica torna mais fácil permanecer no país e trabalhar no mercado negro.

Há um consenso entre os estrangeiros de Calais que querem chegar à Grã-Bretanha: a idealização em torno da Inglaterra, que muitos migrantes descrevem com paixão e, não raro, comparam com as condições sub-humanas do campo em que vivem na França.

"Na Inglaterra respeitam os nossos direitos", diz William Ali, advogado curdo-sírio de 31 anos. "Eu não falo francês e falo um pouco de inglês. Para nós, chegar a Londres é um sonho. Poderemos viver, completar estudos, trazer nossas famílias."

O "eldorado inglês" também é providencial porque candidatos à imigração de países como Afeganistão, Paquistão ou Sudão esperam contar com parentes e conhecidos para, por meio da rede de relações, encontrar moradia temporária ou encaminhar os papéis para os pedidos de refúgio ou asilo político.

Outra perspectiva na cabeça dos estrangeiros de Calais é a busca por um emprego. Em países como Itália, Alemanha ou França, parte da rota até Calais, o desemprego é mais elevado do que em solo britânico e a legislação trabalhista, mais restritiva, prevê a punição a empresas que contratam estrangeiros sem visto de permanência. Na Grã-Bretanha, a inexistência de carteira de identidade e a impossibilidade legal de a polícia exigir identificação em abordagens cotidianas tornam o mercado informal muito atraente.

Em Calais, são raros os casos de quem já esteve em Londres, foi expulso e agora tenta uma nova chance, mas os que já tiveram a experiência alimentam a ideia de que se trata de um "eldorado" para os migrantes.

É o caso de Sheke Ahmad, de 21 anos. Depois de deixar Kandahar, terceira maior cidade do Afeganistão, em 2008, e passar por países como Irã, Turquia, Grécia, Itália e França, o jovem chegou a viver na Inglaterra, mas acabou deportado. "Sou um ser humano, só quero um futuro. Qual é o meu crime? Não ter um passaporte?", questiona. "Já fui preso e deportado. Mas eu vou viver na Europa." /A.N.

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