Ingleses divididos sobre guerra contra o Iraque

A opinião pública da Grã-Bretanha, principal aliado militar dos Estados Unidos, continua dividida sobre a legitimidade e necessidade de um ataque militar contra o Iraque. Nos meios políticos, na imprensa e nas ruas, é intenso o debate se um ataque contra Saddam Hussein pode ser justificado sem que sejam apresentadas provas concretas de que o governo iraquiano mantém programas e estoques de armas de destruição em massa. Há um grande temor de que o conflito possa gerar uma crise incontrolável em todo o Oriente Médio e estimular ainda mais o terrorismo internacional, para o qual a Grã-Bretanha é um dos principais alvos potenciais. Apesar de o governo liderado pelo primeiro-ministro Tony Blair afirmar que o país defende a necessidade de uma nova resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorize uma ação militar contra o Iraque, muitos acreditam que caso o presidente norte-americano, George W. Bush, decida agir sem a autorização das Nações Unidas, a Grã-Bretanha se alinhará automaticamente com o seu tradicional aliado. Numa claro sinal de como a questão do Iraque vem preocupando os britânicos, líderes da igreja anglicana, a principal do país, vem se manifestando abertamente nos últimos dias contra uma ação militar, alertando que isso poderia gerar uma crise gravíssima no Oriente Médio. Os arcebispos de Cantebury, de Bath e Wells e de York apelaram ao primeiro-ministro para que ele "leve em conta a santidade da vida humana" que seria ameaçada com uma ação liderada pelos Estados Unidos. Segundo eles, um ataque militar somente seria justificado como uma "recurso de última instância", apenas diante de provas concretas da existência de armas no Iraque. O reverendo Peter Price, arcebispo de Bath e Wells, disse hoje que continua "não havendo nenhuma prova séria de que exista qualquer perigo iminente de Saddam Hussein vir a usar armas de destruição de massa que ele possa ter". O jornal dominical The Observer, em editorial, afirmou que se houver guerra, ela tem que ser legítima e deve ser decretada pela ONU, não por Bush. Segundo o jornal, Blair "deve usar o seu poder para ser um severo tutor da legitimidade do processo que o mundo está embarcando". The Observer salientou que "que há uma visão, não apenas no mundo árabe, de que todo o exercício de resoluções da ONU e de inspeções de armas é apenas uma encenação, mas que o governo Bush já declarou guerra". Prova disso, segundo o jornal, é a recusa norte-americana de oferecer aos inspetores da ONU informações fundamentais sobre onde os armamentos podem estar estocados no Iraque. Mas apesar do clima de desconforto entre os britânicos, o país está dando cada vez mais sinais de que vê a guerra como inevitável. Mais de 20 mil militares e armamentos deverão ser enviados para o Golfo Pérsico nas próximas semanas. Segundo fontes militares britânicas, essa escalada na presença bélica na região tem objetivo duplo de pressionar Saddam Hussein a colaborar com as inspeções de armas da ONU e também de acelerar as preparações para um eventual ataque. Além disso, já há planos para se convocar cerca de sete mil reservistas para o conflito. Para a maioria dos analistas, essa é a prova concreta de que a guerra no Golfo deverá ser deflagrada em janeiro ou, no mais tardar, em fevereiro de 2003.

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