Ingrid é o tema em posse argentina

Refém das Farc torna-se assunto central de líderes convidados para festa de Cristina Kirchner

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2007 | 00h00

A Argentina terá hoje uma das mais tranqüilas transmissões de poder de sua história - quando pela primeira vez, uma presidente eleita democraticamente, Cristina Fernández de Kirchner, tomará posse. Também será a primeira vez no mundo que um presidente eleito democraticamente, Néstor Kirchner, passará o cargo à esposa.Diante do evento tranqüilo e quase protocolar, outro tema acabou se convertendo no centro das conversas e reuniões dos líderes regionais que estão em Buenos Aires para a posse: os esforços diplomáticos para que se obtenha a libertação da ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt, refém da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) desde 2002.Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (do Brasil), Hugo Chávez (da Venezuela), Álvaro Uribe (Colômbia) e o primeiro-ministro da França, François Fillon, têm uma agenda específica de reuniões para debater o caso de Ingrid, que também tem nacionalidade francesa. Fillon reuniu-se ontem com a mãe da refém, Yolanda Pulecio. Num café da manhã marcado para hoje, na Embaixada do Brasil, Lula deve ouvir de Uribe sugestões de como ajudar na resolução do impasse.A expectativa é a de que Lula também tente baixar o tom de confronto entre Uribe e Chávez em torno do caso Ingrid. Há duas semanas, Uribe desautorizou Chávez a seguir mediando a negociação entre o governo colombiano e as Farc para um possível acordo que libertasse Ingrid e outros 44 reféns políticos da guerrilha em troca da libertação de 500 guerrilheiros presos. POPULARIDADEEleita com 45,2% dos votos em outubro, Cristina começa seu governo com alta popularidade e expectativas elevadas. Segundo uma pesquisa da consultoria Analogias, 66% dos entrevistados afirmam que o governo de Cristina será "bom". Outros 6,5% indicam que será "muito bom". Só 16,4% consideram que sua administração será "ruim", enquanto 4% afirmam que tende a ser "muito ruim". Segundo a diretora da consultoria, Analia del Franco, "os argentinos acreditam que Cristina manterá a estabilidade econômica e não ocorrerão turbulências importantes".Outra pesquisa, realizada pela consultoria Ricardo Rouvier e Associados, indicou que Kirchner deixa o governo com 76,4% de imagem positiva, um nível sem precedentes para o fim de um mandato desde a volta à democracia em 1983. Já Cristina começa sua presidência com 62,5% de aprovação popular.Uma das missões da nova presidente é a de eliminar - ou pelo menos reduzir - a desconfiança dos países do Primeiro Mundo em relação à Argentina. Para isso, ela pretende mostrar ao mundo que está mais próxima de Brasília e Lula do que de Caracas. Como símbolo dessa aproximação com Brasília, os Kirchners ordenaram a construção da embaixada definitiva da Argentina na cidade."Antes se dizia que as mulheres eram inferiores. Hoje dizemos que as mulheres são iguais aos homens. Mas estamos equivocados", declarou Chávez, antes de enclausurar-se no hotel onde se hospeda em Buenos Aires. "Elas têm uma capacidade infinitamente superior." Cristina também pretende reverter o baixo número de visitas presidenciais à Argentina nos últimos anos, estreitar os laços com a Espanha, que seria uma "ponte" com a Europa, e recuperar a relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), cujo presidente, Dominique Strauss-Kahn, prestigiará a sua posse. Leia mais sobre a reunião de chefes de Estado na Argentina e a fundação do Banco do Sul no Caderno de Economia

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