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Inimigos históricos

Qualquer erro de cálculo pode causar uma guerra que ninguém deseja

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

05 de janeiro de 2020 | 06h00

Estamos à beira de uma guerra entre EUA e Irã? Para responder, é preciso analisar as motivações dos dois países. A forma objetiva de fazer isso é reconstituir e interpretar os passos de cada um até aqui. A atual fase de hostilidade começou quando Donald Trump rompeu o acordo nuclear com o Irã, em maio de 2018, e adotou sanções econômicas contra o país, entre agosto e novembro daquele ano. O objetivo declarado de Trump era provocar a queda da teocracia iraniana.

Estive quatro vezes no Irã, a última delas em abril de 2018, quando o rompimento do acordo nuclear era iminente. Já era visível a insatisfação popular. Uma onda de protestos iniciada em dezembro de 2017 havia deixado 25 mortos e centenas de feridos, numa repetição da ferocidade com que o regime reprimiu as manifestações contra os indícios de fraude da eleição presidencial de 2009, que eu também cobri. 

Com a retomada das sanções americanas, a situação econômica voltou a se deteriorar. “A classe média está desaparecendo”, dizem minhas fontes no Irã. Uma nova onda de protestos, em novembro, deixou 208 mortos em menos de uma semana, segundo a Anistia Internacional. O regime iraniano reagiu a essas pressões externas e internas com uma série de ações militares: ataques a dois petroleiros da Arábia Saudita, um dos Emirados Árabes e um da Noruega, e a derrubada de um drone americano, em junho; o bombardeio da principal refinaria e campo de petróleo da Arábia Saudita, em setembro.

Depois da queda do drone, Trump chegou a ordenar uma retaliação, mas, segundo ele mesmo, voltou atrás para evitar mortes. O contundente ataque de setembro contra um dos principais aliados dos EUA na região, e contra a própria estabilidade do fornecimento de petróleo no mundo, também não teve consequências para o Irã.

Uma das credenciais de Trump em sua vitória eleitoral de 2016 foi a promessa de desengajar os EUA das guerras ao redor do mundo, das quais os americanos estão cansados. Por isso, ele tem tentado negociar com Coreia do Norte, Taleban e mudar os regimes de Irã e Venezuela por meio de sanções. 

Ciente dessa falta de apetite de Trump por uma guerra, e ao mesmo tempo asfixiado pelas sanções, o Irã foi esticando a corda. Ela se rompeu no dia 27, com o disparo de 31 foguetes iranianos contra uma base americana no norte do Iraque. Um empregado civil americano morreu e vários militares americanos e iraquianos ficaram feridos.

Ninguém dispara 31 foguetes contra um alvo guardado por forças inimigas só para dar um recado. O objetivo da ação era causar baixas. Foi nesse momento que Trump entendeu a necessidade de conter o Irã militarmente. Uma série de bombardeios americanos a bases no Iraque e na Síria da milícia Brigada do Hezbollah, patrocinada pelo Irã, deixou 24 milicianos mortos no dia 29. Dois dias depois, membros do grupo invadiram a Embaixada dos EUA em Bagdá.

O ataque americano que matou o general iraniano Qassim Suleimani e o comandante da milícia, Abu Mahdi al-Muhandis, ocorre também nas vésperas da data estipulada pelo regime iraniano – segunda-feira – para ultrapassar 20% de enriquecimento de urânio, mais um passo rumo à fabricação de armas nucleares, que requerem 90%.

A declaração de Trump, de que ordenou o ataque para evitar uma guerra, não para iniciá-la, é coerente com os fatos. O Irã também não quer uma guerra, mas apenas elevar o custo, para os EUA, das sanções contra ele. A “dura vingança” anunciada pelo líder espiritual Ali Khamenei deve vir na forma de mísseis e ações de milícias pró-iranianas contra alvos americanos na região. Mas a situação evoluiu para o patamar no qual um erro de cálculo pode levar a uma guerra que ninguém deseja. 

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