Injeção de recursos dos EUA já supera Plano Marshall

Desde o início da guerra, em 2002, tentativas de estabilizar o Afeganistão já consumiram cerca de US$ 109 bilhões

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2014 | 02h04

Nos 13 anos desde a invasão do Afeganistão, em 2001, os Estados Unidos gastaram no país mais do que destinaram à reconstrução da Europa depois do fim da 2.ª Guerra com o Plano Marshall. Mais da metade dos recursos foi usada na criação e armamento das forças de segurança, que desde o ano passado são responsáveis pelo comando das operações de combate no território afegão.

O restante foi canalizado a diferentes programas de ajuda, que incluíram a criação de um arcabouço institucional nos moldes ocidentais, construção de escolas e hospitais e realização de obras de infraestrutura.

Apesar da enorme injeção de recursos, o Afeganistão tem o mais elevado índice de mortalidade infantil do mundo e um dos maiores de mortalidade materna. Trinta e seis por cento da população vive abaixo da linha da pobreza e apenas 30% do país está conectado a fontes permanentes de eletricidade.

Outro ranking explica, em parte, os números: segundo a Transparência Internacional, o Afeganistão é o terceiro país mais corrupto do mundo, atrás de Somália e Coreia do Norte.

No período de 2002 a junho de 2014, os Estados Unidos gastaram US$ 104 bilhões no esforço de reconstrução e ajuda ao Afeganistão, mostram as estatísticas da entidade governamental responsável por supervisionar os recursos, conhecida pela sigla Sigar. Atualizada, a cifra chega a US$ 109 bilhões.

Em relatório enviado ao Congresso americano no mês de julho, a instituição estimou que a quantia supera o que os EUA destinaram ao Plano Marshall. Em valores corrigidos pela inflação, o esforço de reconstrução de 16 países europeus no período de 1948 a 1952 custou aos americanos US$ 103,4 bilhões.

A diferença é que os gastos no Afeganistão contemplaram não apenas a reconstrução do país, mas também a criação de Exército, Força Aérea e polícia com um contingente total de 340 mil pessoas, esforço que consumiu US$ 62 bilhões dos US$ 104 bilhões. Mas os restantes US$ 42 bilhões representam quase o dobro do que os EUA gastaram na reconstrução da Grã-Bretanha no pós-guerra: US$ 24,7 bilhões em valores atualizados, de acordo com cálculos da Sigar.

Os principais avanços na área social ocorreram na educação, com a matrícula em escolas de milhões de crianças, especialmente meninas. Durante os seis anos do governo do Taleban, mulheres foram proibidas de estudar e só podiam trabalhar em situações especiais. Apesar de o Afeganistão continuar a ter o maior índice de mortalidade infantil do mundo, o indicador melhorou nos últimos 13 anos, quando também houve aumento da expectativa de vida da população.

A mobilização de recursos também não criou uma economia local capaz de prover receita suficiente para a manutenção do Estado afegão. De acordo com a Sigar, a receita tributária do país em 2013 foi de US$ 2 bilhões, para gastos orçados em US$ 5,4 bilhões. A diferença foi coberta pela ajuda internacional, que tem acompanhado o movimento de retirada de tropas do país e está em retração.

Estimativa do Banco Mundial citada no relatório indica que as receitas do governo afegão permanecerão aquém das despesas pelo menos até 2025, em um valor equivalente a 20% do PIB do país, que soma US$ 21 bilhões - o PIB brasileiro é de US$ 2,25 trilhões. / C.T.

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