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Inquietação pré-Brexit

Encarregado de negociar saída se demite. Será uma punição a May ou acesso de cólera?

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2017 | 05h00

Em Londres, inquietação. Em Bruxelas, resmungos. Nas capitais europeias as pessoas coçam a cabeça. O que ocorre de tão grave? Sir Ivan Rogers, embaixador britânico escolhido pela primeira-ministra Theresa May para negociar a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, pediu demissão repentinamente, seis meses depois do voto favorável ao Brexit no referendo.

A demissão de um diplomata ponderado, respeitado e com todas as chaves das conversações entre Londres e Bruxelas não significa que os britânicos se retrataram de sua decisão. Ela foi tomada em um referendo, portanto, é irreversível. No entanto, a saída surpreendente de Rogers sugere que a negociação sobre o “divórcio” entre Londres e Bruxelas tem provocado rangidos.

O embaixador é um homem discreto. Portanto, não conhecemos suas razões. Ele é muito próximo do ex-premiê David Cameron, que arquitetou o referendo, mas esperava que o voto pela permanência da Grã-Bretanha na UE fosse vitorioso. Rogers quis punir as hesitações da primeira-ministra ou se tratou de um acesso de cólera contra os dois ministros responsáveis pelo Brexit no gabinete de May, David Davis e Boris Johnson?

Parece que há um conflito sobre as datas. Os defensores do Brexit estão com pressa. Querem lançar o processo de divórcio a partir de 30 de março e determinar um prazo de dois anos para consolidar a separação.

Mas Rogers, mais habituado que os ministros à lentidão de Bruxelas e conhecendo a complexidade de tal divórcio, entende que serão necessários dez anos até a Grã-Bretanha se desligar totalmente da União Europeia.

E a chefe de governo, o que pensa? Ninguém sabe. Talvez nem ela. O que se sabe, com certeza, é que nos círculos do poder o estado de espírito é execrável: “A disputa é feroz”, foi o título do jornal Daily Mail.

Complexidade. Não é só o ritmo da separação que desperta as paixões. Também, e sobretudo, as modalidades da separação. Londres prefere deixar completamente a União Europeia e o mercado comum para ser um país comum, como o Canadá, a Rússia ou o Zimbábue? Ou pretende preservar alguns vínculos com o bloco europeu? Por exemplo, permanecer na união aduaneira europeia e também no mercado único.

Não há uma resposta clara. Um outro enorme problema: resolver o destino dos europeus que estão na Grã-Bretanha e dos britânicos estabelecidos na Europa, um grande abacaxi, cuja solução condenará à morte ou salvará a City, praça financeira de Londres.

Só para solucionar as questões jurídicas será necessário examinar 40 mil textos de lei, 1,5 mil casos jurídicos e 62 mil normas internacionais. Compreendemos porque o caro Rogers às vezes tem pequenas vertigens. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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