Insatisfação tem pouco a ver com fator ideológico

Para especialistas, imagem ruim de líderes latino-americanos está ligada à baixa consciência social da população

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2015 | 03h38

A baixa popularidade de alguns governos latino-americanos não tem relação com ideologias. A crise passa pelo desempenho de líderes, mas também é indissociável da baixa consciência social dos próprios descontentes. Especialistas ouvidos pelo 'Estado' apontam certa alienação quando cenários internacionais e internos são favoráveis.

"As pessoas prestam mais atenção nos casos de corrupção quando a economia não cresce. Quando há emprego e salários, parece haver mais tolerância com os desvios", diz o chileno Patricio Navia, professor da Universidad Diego Portales e da Universidade de Nova York.

Navia refere-se ao cenário latino-americano em geral, mas especialmente ao de seu país, até pouco tempo um exemplo para os vizinhos. A presidente Michelle Bachelet passa pela pior crise de popularidade de seus dois governos (2006-2010 e o que começou em março do ano passado).

A razão central é o envolvimento de seu filho, Sebastián Dávalos, e de sua nora em um caso de tráfico de influência. Dávalos conseguiu empréstimo de US$ 10 milhões em um banco público para que a empresa da mulher comprasse terrenos que se valorizaram 46% após a eleição. A popularidade de Bachelet, que era de 54% ao assumir, está em 31% segundo o instituto Adimark. O PIB do país cresceu 1,9% em 2014, menos do que os 5,4% de média nos quatro anos anteriores.

"Quando a economia se paralisa, os políticos corruptos passam a ser a causa disso. Pensa-se ainda que a corrupção é a razão pela qual aumenta o desemprego e as oportunidades desaparecem. A preponderância do tema corrupção na América Latina se explica pelo esfriamento da economia. Não é que agora ela seja maior, mas agora a população culpa a corrupção pelo fim da festa dos preços altos das commodities", disse Navia.

Na Venezuela, a crise que levou a popularidade do presidente Nicolás Maduro a 28,2% está ligada à inflação e à escassez de produtos, afirma Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis. "Mesmo que o caso venezuelano seja mais complexo, a base da insatisfação é econômica. Era uma situação ruim com Hugo Chávez, mas se agravou com Maduro", avalia. A situação é tão extrema que sua consultoria trabalha com um número para a inflação, já que a oficial deixou de ser divulgada há três meses, mas está proibida de mencioná-lo.

Quando há um histórico recente de miséria extrema, o cidadão tende a ser mais tolerante com o governo. Esse caso parece explicar a popularidade de Cristina Kirchner, na Argentina, que se mantém em 40% de aprovação. Sua maior baixa ocorreu quando ela enfrentou os produtores rurais, em 2008 - a aprovação foi a 20%. Mesmo durante a investigação da morte do promotor Alberto Nisman, quando a oposição apostava em uma derrocada do governo, ela baixou apenas 5 pontos porcentuais, terreno que já recuperou, segundo o instituto Poliarquía.

Nisman - encontrado morto em seu apartamento no dia 18 de janeiro - havia denunciado a presidente quatro dias antes por acobertar iranianos acusados do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina, que matou 85 em 1994. Sua denúncia foi arquivada.

Na inauguração do maior centro cultural do país, na quinta-feira, Cristina deu uma pista sobre por que deve terminar o mandato como a líder com maior respaldo na Argentina desde 1983, após o fim da ditadura. "Quando a Argentina explodiu (em 2001), a única cultura era a da sobrevivência", afirmou, referindo-se à crise econômica que fez o país a ter cinco presidentes em 12 dias.

Mesmo que a economia patine e o governo mascare indicadores, Cristina tem boa possibilidade de fazer seu sucessor, provavelmente Daniel Scioli, governador de Buenos Aires, um peronista moderado que nunca foi seu preferido, mas é o que está na frente nas pesquisas para a eleição de outubro.

Para Carlos de Angelis, professor de ciências políticas da Universidade de Buenos Aires, a região não aproveitou os últimos 10 anos para crescer no que realmente importava. "A última década para a América Latina foi melhor para os países do que para suas sociedades", disse.

De Angelis afirma que a maior parte dos países cresceu, talvez com exceção da Venezuela, mas basta haver um bloqueio nos ingressos dos setores médios que a rejeição aos governos aparece. "A lógica latino-americana é 'políticocêntrica'. Se espera muito do Estado de de seus políticos. Quando as coisas não vão bem, quando caem os preço das commodities, a culpa não é da situação internacional, mas dos políticos. Nesse contexto, as denúncias de corrupção jogam gasolina no fogo."

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