Insegurança ameaça venda de maconha em farmácias

Tabaré acha que drogarias serão alvo de traficantes; meta do governo é iniciar venda da erva antes de Mujica sair, em março

MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2014 | 02h02

Garantir a segurança na venda estatal de maconha é um dos entraves mais sérios à lei uruguaia que se propõe justamente a combater a insegurança ao debilitar o narcotráfico vendendo a droga mais barato. O provável sucessor de José Mujica, o ex-presidente Tabaré Vázquez, da esquerdista Frente Ampla, já alertou que falta proteção para vender em farmácias a droga cultivada sob supervisão estatal.

"Suponhamos que você é dona de uma farmácia em um bairro de Montevidéu. E nesse território agem narcotraficantes que têm seu negócio e são implacáveis. Suponhamos que você tem sucesso e o narcotráfico fica sem negócio no bairro. Certamente virão e lhe dirão que colocarão fogo na sua farmácia ou você sofrerá um acidente", disse Tabaré ao canal TNU.

O candidato conservador Luis Aberto Lacalle Pou, do Partido Nacional, foi ainda mais incisivo. Disse que não levaria essa parte da lei adiante.

Segundo a Junta Nacional de Drogas, o cultivo da maconha começará em dezembro e será feito por até cinco empresas. A meta é vender a droga em farmácias até março, quando Mujica deixa o poder - segundo analistas, um forma de evitar retrocesso na execução da lei símbolo desse governo.

A venda em farmácias é a parte mais ousada da legislação regulamentada em abril. Até agora, a mudança mais representativa é o cultivo individual de até seis plantas em casa por usuários registrados pelo Estado.

Os clubes de cultivo, que terão até 45 sócios, ainda não vendem o produto por falta de vistoria estatal, mas também projetam precauções. "Nossa orientação é que só 4 dos 45 sócios saibam onde estão as plantas. Além disso, pedimos que contas de luz e água não venham em nome dos clubes, mas de algum dos sócios, para que não se saiba o local de produção", disse ao Estado Laura Blanco, da Associação de Estudos da Canabis do Uruguai (Aecu).

Segundo Marco Algorta, sócio de uma loja de insumos para maconha que receberá um clube de cultivo, um pé da planta pode produzir até 400 gramas, o que nas ruas vale até US$ 800. O Uruguai pretende vender o grama a US$ 1, praticamente a metade do preço pago no mercado local. Outra vantagem de comprar a droga do Estado estaria na qualidade e controle sobre a concentração.

Procurados, o Centro de Farmácias do Uruguai e a Associação Nacional de Farmácias do Interior disseram que só falarão sobre medidas de proteção aos estabelecimentos quando for concluída a negociação com a Junta Nacional de Drogas sobre todos os pontos relativos ao comércio. "Estamos em um impasse", resumiu Elisabeth Rabera, presidente da entidade que representa os estabelecimentos de fora da capital.

A lei determina que a droga não pode estar exposta ao público. Além disso, "o lugar onde esteja armazenada deve ficar trancado e ter condições de segurança adequados". A associação dos farmacêuticos faz campanha contra a venda nas farmácias não por questões de segurança, mas porque "afetaria a imagem das drogarias". / R.C.

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