Inspetor chefe da ONU se diz pronto para ir a Bagdá

O inspetor chefe das Nações Unidas, o sueco Hans Blix, afirmou estar pronto para ir ao Iraque e retomar as inspeções sobre a possibilidade do país estar desenvolvendo armas nucleares, biológicas e químicas. A declaração foi feita hoje, por meio de um dos porta-vozes da ONU em Genebra. O governo de Bagdá enviou, na segunda-feira, uma carta ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na qual garante que os inspetores poderão entrar no país sem que o Iraque imponha qualquer tipo de condição. Hoje representantes da ONU, Estados Unidos, Rússia e União Européia (UE) se reuniram para tratar do assunto. O debate ainda incluiu os governos do Egito, Síria, Líbano e Arábia Saudita. Desde 1998, Bagdá afirmava que os inspetores da ONU estavam servindo de espiões para o governo dos Estados Unidos e, por isso, teria impedido que os trabalhos de verificação continuassem. O uso de organizações internacionais para encobrir interesses norte-americanos, porém, parece ser mais freqüente do que se poderia imaginar. Informações apuradas pela Agência Estado mostram que as inspeções realizadas pela Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), por exemplo, estão sendo vigiadas de perto pela Casa Branca. Em abril, o diplomata brasileiro José Maurício Bustani foi afastado do cargo depois de uma campanha norte-americana contra sua gestão. O motivo do desagrado não era exatamente o estilo da administração de Bustani, como alegava a Casa Branca, mas as posições defendidas pelo brasileiro em relação à incorporação do Iraque na organização e, portanto, a perspectiva do esclarecimento das dúvidas sobre a existência ou não de armas químicas em Bagdá. Os Estados Unidos, porém, não queriam o envolvimento da Opaq nos assuntos da Casa Branca, muito menos em um tema estratégico para a administração de George W. Bush. Com a saída de Bustani, os Estados Unidos pagaram as dívidas que tinham com a Opaq. Em compensação, as conversações entre a Opaq e o Iraque foram encerradas e, em um momento em que os Estados Unidos acusam Bagdá de desenvolver armas químicas, a agência criada pela ONU exatamente para tratar do assunto ficou totalmente excluída dos debates. Os Estados Unidos ainda conseguiram promover alterações fundamentais na estrutura da Opaq, colocando-a sob o controle direto de Washington. Trinta e três funcionários, a maioria ligados ao brasileiro, foram afastados. A chefia da divisão de inspeções industriais, que tem a função de selecionar e monitorar as inspeções, está nas mãos de um americano, Don Clagep, que agora tem o poder de escolher quem, como e quando verificar. Para o próximo ano, a diretoria está propondo algumas mudanças nas inspeções. Das 34 verificações planejadas nos países desenvolvidos, a maioria nos Estados Unidos, apenas 14 ocorreriam, supostamente para economizar verbas. Mas em compensação, as inspeções nos países em desenvolvimento e na Rússia passariam de 22 para 80. Também alegando falta de verbas, os Estados Unidos querem reduzir o número de inspetores contratados pela Opaq. Mas, cinicamente, garantem: vão oferecer, de graça, funcionários norte-americanos para garantir que as inspeções em todo o mundo não sejam interrompidas.

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