Instabilidade de navio força suspensão de busca e capitão admite demora para agir

Depois de o navio Costa Concordia, naufragado na Itália na sexta-feira, ter escorregado mais de 1 metro em direção a águas mais profundas no início da manhã de ontem, aumentando a preocupação sobre um possível desastre ambiental, as buscas por possíveis sobreviventes dentro da embarcação foram suspensas.

ROMA, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2012 | 03h02

No mesmo dia, a imprensa local revelou que o capitão do navio, Francesco Schettino, admitiu aos investigadores do caso ter ordenado "tarde demais" que a embarcação de 114,5 mil toneladas virasse quando o Costa Concordia se aproximava da Ilha de Giglio, onde ocorreu o naufrágio. A informação consta de uma transcrição do interrogatório, segundo meios de comunicação italianos.

As buscas foram suspensas quando os socorristas preparavam-se para detonar cargas explosivas para desobstruir algumas passagens e permitir o trabalho dos mergulhadores - como havia ocorrido entre a noite de terça-feira e a madrugada de ontem. "A visibilidade está horrível. Peguei um objeto e não consegui ver o que era até estar com a cabeça para fora da água. Era um sapato de mulher", contou o mergulhador Giuseppe Minciotti. "Estamos esperando para que novas aberturas sejam feitas (com os explosivos) e esperamos que a visibilidade melhore."

Durante a noite, a Guarda Costeira afirmou que a embarcação já não se movia, garantindo que, se a situação permanecesse igual, as buscas seriam retomadas na madrugada de hoje. Ontem, corpo retirado do músico húngaro Sandor Feher, foi identificado (mais informações nesta página) e 21 pessoas ainda estavam desaparecidas. Vários parentes de vítimas estão em Giglio acompanhando as buscas. "Pedimos que, neste momento, as equipes de resgate e autoridades não percam tempo e façam o que possam para encontrar, viva ou morta, minha filha", disse Sartorino Soria, pai da tripulante peruana Erika Soria Molina.

Justiça. A magistrada da Província de Grosseto que determinou a prisão domiciliar do capitão do Costa Concordia afirmou ontem que existem "graves indícios" contra o comandante. Acusando Schettino de ser o responsável por "um desastre de proporções mundiais", a juíza Valeria Montesarchio confirmou que o capitão negou-se a voltar a bordo, contrariando ordens da Guarda Costeira.

Segundo a magistrada, "não há dúvidas" da gravidade das ações do capitão, que ontem chegou a sua casa em Meta di Sorrento, na região de Nápoles, no sul da Itália. Para justificar a concessão do benefício da prisão domiciliar a Schettino, a magistrada afirmou que não há risco de fuga do capitão.

O procurador de Grosseto, Francesco Verusio, afirmou ontem que pretende recorrer da decisão para que Schettino volte a ser detido em uma instituição pública. "É possível, sim, que ele fuja."

Em declarações à rádio local, Verusio definiu o capitão do Costa Concordia como um homem "mau" e ironizou a versão de Schettino sobre o suposto abandono de navio. "Seu comportamento foi imperdoável. Mesmo admitindo que ele tenha caído (da embarcação, durante o naufrágio) em um bote salva-vidas, ele podia ter voltado ao navio como capitão, não?"

O advogado do comandante, Bruno Leporatti, disse que "não há dúvidas" de que seu cliente fez uma manobra equivocada ao aproximar o navio da Ilha de Giglio, mas sugeriu que o comandante não fugiu da embarcação durante o perigo.

Schettino foi indiciado por homicídio culposo (não intencional) múltiplo, causar um naufrágio e abandono de navio - crime que o capitão nega, cuja pena pode chegar a 12 anos de prisão.

O premiê italiano, Mario Monti, comentou ontem pela primeira vez o naufrágio, afirmando que esse desastre "poderia e deveria" ter sido evitado.

Ele garantiu que estão sendo tomadas todas as precauções para garantir que as 2,3 mil toneladas de combustível da embarcação não vazem (mais informações na página A11).

Segundo Monti, as autoridades italianas têm como prioridade a prevenção de um desastre ambiental, assim como a assistência às vítimas e a seus parentes. / REUTERS, AFP e EFE

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