Sergey Ponomarev/NYT
Sergey Ponomarev/NYT

Instabilidade em países vizinhos afeta governo de Putin

Protestos na Bielo-Rússia e no Quirguistão, além da guerra entre Armênia e Azerbaijão, ameaçam estabilidade na Rússia

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 04h00

EREVAN - As crises na Bielo-Rússia, na Ásia Central e na região do Cáucaso surpreenderam o Kremlin e vem corroendo a imagem do presidente russo, Vladimir Putin, tido como o mestre da estratégia. “Esses conflitos não são bons para Moscou”, disse Konstantin Zatulin, deputado russo, aliado de Putin, especializado nas relações com os países vizinhos. 

Há anos Putin busca tornar a Rússia uma potência global. O país está sempre envolvido em regiões de conflito, da América Latina ao Oriente Médio, e até interferindo em eleições presidenciais nos EUA. Mas, depois de trabalhar anos para desestabilizar o Ocidente, de repente Putin se depara com a instabilidade na Rússia. Visto como um líder hábil e seguro em assuntos externos, agora, ele parece ter perdido sua maestria.

Na Bielo-Rússia, Putin reagiu às manifestações de agosto apoiando o impopular presidente, o autocrata Alexander Lukashenko. Sua iniciativa levou a opinião pública bielo-russa, até então simpática ao vizinho, a se voltar contra a Rússia.

Nesta semana, no Quirguistão, manifestantes pareciam perto de derrubar o presidente, Sooronbai Jeebekov, menos de duas semanas depois de Putin prometer a ele que faria “tudo para apoiá-lo. O primeiro-ministro, Kubatbek Boronov, acabou renunciando.

Na região do Cáucaso, um conflito entre Armênia e Azerbaijão, envolvendo o enclave de Nagorno-Karabak, levou aos piores confrontos desde a década de 90, ameaçando pôr fim ao equilíbrio que permitiu à Rússia cultivar uma boa relação na região. “A Rússia tem feito todo o possível para manter os vínculos com Azerbaijão e Armênia”, disse Zatulin. “Mas cada dia de conflito em Nagorno-Karabakh vai reduzindo a zero a autoridade da Rússia.”

Essa série de novos desafios à influência russa golpeia os esforços de Putin para se colocar como um líder que restaurou a condição de grande potência que seu país perdeu com o colapso da União Soviética. Agora, em vez de reagir decisivamente às emergências perto de casa, Putin parece ambivalente quanto ao papel da Rússia. 

“Espero que o conflito termine muito em breve”, disse ele, referindo-se a Nagorno-Karabakh, durante entrevista na TV, na quarta-feira. Minutos depois, ao falar sobre o Quirguistão, ele afirmou: “Espero que tudo se resolva pacificamente.”

A confluência de crises nas repúblicas vizinhas é tamanha que alguns comentaristas pró-Kremlin já vêm acusando o Ocidente de empreender uma campanha organizada para desestabilizar as regiões que fizeram parte do império soviético.

Mas analistas mais equilibrados têm destacado um fator constante nos conflitos. Tanto a Rússia quanto seus vizinhos estão cambaleantes em razão da pandemia de coronavírus, que expôs a desconfiança nas instituições. A covid anulou a frágil trégua entre Azerbaijão e Armênia e, na Bielo-Rússia e no Quirguistão, a doença deu espaço para as revoltas populares, expondo uma elite no poder que desconhece o sofrimento do povo.

Lukashenko enfureceu os bielo-russos ao minimizar o perigo do vírus, afirmando que seria eliminado com vodca. No Quirguistão, os críticos acusam as autoridades de se enriquecerem com o dinheiro destinado ao combate ao vírus.

Dentro da Rússia, as dificuldades econômicas causadas pela pandemia aprofundaram a revolta contra Putin. Na cidade de Khabarovsk, por exemplo, milhares de pessoas furiosas com a prisão de um governador popular tomaram as ruas no sábado pela 13.ª semana consecutiva.

Segundo especialistas, o descontentamento da população na Rússia indica que Putin tem de se concentrar mais nos assuntos domésticos, nas dificuldades econômicas, nos problemas com a poluição e um sistema de saúde medíocre, em vez de mergulhar na geopolítica global. Mas os acontecimentos das últimas semanas dão ao Kremlin mais motivos o para focar na última questão.

“Para Putin, sua missão e sua visão da grandeza e sucesso da Rússia giram em torno da sua agenda de política externa”, disse Tatiana Stanovaya, do centro de estudos Carnegie Moscow Center. A nova série de crises, na sua opinião, “deverá desviar Putin dos problemas domésticos”.

Enquanto isso, aliados esperam uma mudança no cenário dos países vizinhos. Para Zatulin, autoridades “dos mais altos níveis da Federação Russa” acham que Lukashenko, “cedo ou tarde”, terá de renunciar. Mas ele tem afirmado às autoridades russas que sua saída, diante das manifestações populares, seria um precedente perigoso para o que pode acontecer com o próprio Putin.

“Apoiando incondicionalmente Lukashenko, estamos criando um enorme problema para nós mesmos no futuro, junto à maioria, ou uma parte importante da população bielo-russa”, disse Zatulin. “Estamos criando um problema para nós junto aos políticos e figuras públicas daquele país, que se veem cada vez mais forçados a buscar a compaixão do Ocidente. É a última coisa que a Rússia deseja.” / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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