Instabilidade faz da Guatemala o novo paraíso do tráfico

Repressão às drogas no México aumenta influência de cartéis no país vizinho e desata crise que ameaça o país

Cristiano Dias e Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

25 de maio de 2009 | 00h00

Há alguns meses, a guerra dos mexicanos contra o narcotráfico monopoliza as atenções do continente, mas há um país na região que vem se deteriorando muito mais rapidamente e agonizando em silêncio: a Guatemala. Com a repressão aos cartéis cada vez mais dura no México, os traficantes encontram um refúgio seguro em território guatemalteco e ameaçam transformar o país num narco-Estado."A Guatemala está sofrendo as consequências da repressão ao tráfico no México", disse ao Estado Maureen Meyer, analista do Washington Office on Latin America. "As instituições guatemaltecas são muito frágeis, por isso o país é uma presa mais fácil para os cartéis."Segundo a DEA, agência antidrogas dos EUA, três quartos da cocaína consumida pelos americanos passam pela Guatemala. Analistas calculam que o narcotráfico domine hoje 40% da economia local. Todo o ano, US$ 10 bilhões em cocaína passam pelo país - 10% desse dinheiro é usado para subornar funcionários públicos, políticos, policiais e juízes. "É tanto dinheiro que dá para comprar qualquer juiz ou político do país", diz Yuri Melini, diretor do Centro de Ação Legal, Ambiental e Social da Guatemala. O economista Sigfrido Lee, analista do Centro Nacional de Pesquisas Econômicas, lembra que o fluxo de capital injetado no sistema financeiro da Guatemala é totalmente desproporcional ao tamanho da economia, "o que prova que há um fluxo enorme de capital ilegal".O tráfico se tornou uma das principais fontes de emprego e o lucro obtido é a maior fonte de financiamento de campanhas políticas na Guatemala. Além da corrupção, a droga também se alimenta da miséria. "A repressão no México piorou a segurança pública na Guatemala, mas a miséria deixou o país muito mais vulnerável ao tráfico", afirma Mary O?Grady, ex-consultora da Merrill Lynch. O termômetro da gravidade da situação é a crise política que vive o país. O atual presidente, Álvaro Colom, é acusado de ser o mandante do assassinato do advogado Rodrigo Rosenberg, morto a tiros no dia 11 durante um passeio de bicicleta. Antes de morrer, ele gravou um vídeo acusando o presidente. "Meu nome é Rodrigo Rosenberg e se você estiver vendo este vídeo é porque fui assassinado pelo presidente", diz a mensagem distribuída no seu enterro. O motivo seria o fato de ele ser advogado do empresário Khalil Musa, assassinado em abril por ter-se recusado a participar de um esquema de corrupção envolvendo governo e narcotráfico. A reação foi imediata. Grupos opositores, ONGs e a população saíram às ruas para exigir a renúncia de Colom, mergulhando a Guatemala na pior crise desde a guerra civil, que durou 36 anos e acabou em 1996 com um saldo de 200 mil mortos.Colom diz que o vídeo é um complô para derrubá-lo, mas para o cientista político Pedro Trujillo, diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Francisco Marroquín, na Cidade da Guatemala, a debilidade institucional está deixando o país à mercê do tráfico. Os militares, por exemplo, não têm radares de baixa altura, o que torna o céu da Guatemala um parque de diversões para as avionetas dos traficantes que voam abaixo de 400 metros. Na fronteira com o México, a polícia não tem armas, rádio, carros, e os cartéis mexicanos já se estabeleceram no país. "O sistema de segurança da Guatemala é do século 19, enquanto o tráfico trabalha com tecnologia do século 21", disse Carlos Castresana, diretor da Comissão contra a Impunidade na Guatemala. "Se nada for feito, dentro de dois anos os mexicanos serão donos do país."Nos anos 80, os cartéis colombianos foram pulverizados, mas o mercado de distribuição de cocaína apenas trocou de endereço, reaparecendo no México. "Dificilmente os cartéis deixarão de operar na fronteira do México com os EUA, mas, se a repressão aumentar, eles podem imigrar para a Guatemala", disse Maureen, do Washington Office on Latin America. O caminho está aberto. A taxa de criminalidade da Guatemala já é o dobro da brasileira. Só no ano passado, foram 6 mil assassinatos ligados ao tráfico, mesmo número de mortos no México no mesmo período. Para Maureen, boa parte dos problemas mexicanos já foi empurrada para o vizinho. Hoje, além dos coiotes que cruzam o Rio Grande, entre EUA e México, surgiram outros na fronteira mexicana com a Guatemala, que, por US$ 5 por cabeça, levam grupos de clandestinos para o México.

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