Drew Angerer/Getty Images/AFP
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Instabilidade na América Latina força Biden a enfrentar desafios à democracia perto de casa

Influência dos EUA começou a minguar na região na última década, à medida que sucessivos governos se voltaram para o combate ao terrorismo no Oriente Médio

Lara Jakes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 10h00

WASHINGTON - O presidente Joe Biden assumiu o cargo com avisos ousados para a Rússia e para a China em relação aos direitos humanos, enquanto pressionava as democracias em todo o mundo a se oporem publicamente à autocracia. Mas, nesta semana, ele está enfrentando uma série de desafios semelhantes na vizinhança dos Estados Unidos.

Na segunda-feira, um dia após os gigantescos protestos em Cuba, Biden acusou as autoridades no país de “enriquecerem a si mesmos” em vez de proteger as pessoas da pandemia de covid-19, da repressão e do sofrimento econômico.

Uma hora depois, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que estava revogando os vistos que permitiam que 100 políticos, juízes e seus familiares da Nicarágua viajassem para os EUA, como uma punição pelo país comprometer a democracia ao reprimir os protestos pacíficos ou não respeitar os direitos humanos.

No início da tarde, Biden focou novamente no Haiti, encorajando as lideranças políticas do país a “se unirem pelo bem de seu país”, menos de uma semana depois de o presidente Jovenel Moïse ser assassinado em sua cama.

“Os Estados Unidos estão prontos para continuar oferecendo ajuda”, Biden disse aos repórteres na Casa Branca. Ele prometeu mais detalhes a respeito do Haiti e de Cuba depois: “Fiquem atentos”, disse. A turbulência apresenta uma crise em potencial mais perto de casa, com um possível êxodo de haitianos enquanto o governo Biden luta com uma onda de migrantes na fronteira sudoeste. Isso também está forçando a Casa Branca a se concentrar na região de forma mais ampla, depois de anos de indiferença - ou atenção limitada - de governos republicanos e democratas anteriores.

“O padrão evidente dessa situação é que temos estado muito preocupados com as instituições democráticas ao longo do tempo”, disse Patrick Ventrell, diretor de política da América Central do Departamento de Estado dos EUA, na segunda-feira. Ele calculou que mais da metade dos sete países da América Central estavam lidando com desafios aos sistemas de governo eleitos livremente.

Mas a influência dos EUA começou a minguar na região na última década, à medida que o país se voltava para o combate ao terrorismo no Oriente Médio e conforme a Rússia e, sobretudo, a China passaram a financiar projetos e oferecer apoio político e outros incentivos.

Ryan C. Berg, membro sênior e acadêmico do programa das Américas no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, disse que, atualmente, a China é o principal parceiro comercial de pelo menos oito países latino-americanos e que 19 países da região estavam participando do extenso projeto de infraestrutura e investimento de Pequim, conhecido como Belt and Road Initiative (Iniciativa do Cinturão e Rota).

Os Estados Unidos “consideraram a América Latina como uma fonte garantida de estabilidade e força durante décadas”, disse Berg.

“Esquecemos de usar como base esses movimentos democráticos iniciais que seriam capazes de canalizar um pouco dessa raiva que estamos vendo agora, em termos de revoltas, em termos de serem capazes de combater a corrupção, em termos de serem capazes de oferecer às pessoas bens socioeconômicos reais”, disse ele. “Não reconhecemos a região da mesma forma de antes.”

Há uma década, os EUA não viam nenhuma “questão urgente” se espalhando pela América Latina e pelo Caribe, de acordo com uma análise da Instituição Brookings.

Apesar do fluxo de migrantes da região, do crime e do tráfico de drogas perto da fronteira permanecerem preocupantes, as autoridades americanas recorreram aos governos latino-americanos para contê-los. A análise também observou um compromisso regional com a democracia e outros direitos humanos que descreveu como "digno de nota, apesar da prática desigual".

Como vice-presidente durante o governo Obama, Biden supervisionou uma política que em 2015 restaurou as relações diplomáticas com Cuba pela primeira vez em mais de meio século. Os republicanos e alguns democratas no Congresso rapidamente denunciaram a medida, e o presidente Donald Trump a anulou em 2017, dizendo que a tentativa de diplomacia fortaleceu o governo comunista de Cuba e enriqueceu seus militares repressivos. Nos últimos dias do governo Trump, Cuba foi redesignada como um Estado patrocinador do terrorismo.

Em 2018, as eleições na Venezuela, que foram amplamente consideradas fraudulentas, foram um lembrete gritante de como as instituições democráticas da região tinham ruído.

O governo Trump emitiu uma série de sanções econômicas contra o presidente Nicolás Maduro e seus assessores, e tentou fazer com que os venezuelanos ficassem contra ele ao apoiar Juan Guaidó, então líder do parlamento do país, como seu legítimo presidente.

A Venezuela, outrora um dos países mais prósperos da América do Sul, é agora um dos mais pobres, destruído pela corrupção e pelas sanções que causaram a decadência de sua lucrativa indústria de petróleo. E Maduro permanece no poder, com a ajuda do apoio da Rússia e de Cuba.

Estima-se que quatro milhões de refugiados deixaram a Venezuela desde então, criando uma das piores catástrofes humanitárias do mundo. Quase metade deles estão na vizinha Colômbia, que nesta primavera (do hemisfério norte) enfrentou sua própria instabilidade doméstica, enquanto manifestantes furiosos com os impostos nacionais e com a exaustão causada pela covid-19 entraram em confronto com as forças de segurança.

Em uma entrevista em maio, o presidente da Colômbia, Iván Duque Márquez, disse não ter dúvidas de que os EUA continuarão a apoiar seu país, apesar das preocupações com os direitos humanos em relação às estratégias de seu governo.

“Temos que ser todos honestos e jurar de pés juntos por um momento”, disse Duque aos repórteres do New York Times. “Estamos vivendo em tempos muito complicados ao redor do mundo. Temos visto altos níveis de polarização política. Vocês estão vivendo isso nos Estados Unidos. E vocês sabem que quando se combina polarização com redes sociais e opiniões que às vezes não são baseadas em um entendimento completo, elas podem gerar violência.”

Mas o governo Biden está extremamente ciente da natureza delicada da democracia na região.

“Sejamos honestos: democracias são coisas frágeis. Reconheço isso completamente”, disse Samantha Power, chefe da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, em um discurso no mês passado na Universidade Centro-Americana em São Salvador.

Ataques a juízes, jornalistas, autoridades eleitorais e outras instituições nos EUA ressaltaram que atentados às liberdades e liberdades civis podem acontecer em qualquer lugar, disse ela.

Por isso, segundo Samantha, “é tão importante se opor publicamente à corrupção e ao comportamento autocrático onde quer que ele ocorra - porque essas ações podem crescer rapidamente e ameaçar a estabilidade, ameaçar a democracia e ameaçar a prosperidade”. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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