Instabilidade põe economia do Egito à beira do abismo

Nova onda de violência vem à tona enquanto governo Morsi e FMI tentam selar acordo; corte de subsídios ameaça ampliar convulsão

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h02

A nova onda de violência no Egito ameaça "levar ao colapso do Estado", alertou na terça-feira o chefe do Exército do Egito, general Abdel Fattah el-Sissi, em um ultimato velado tanto ao governo da Irmandade Muçulmana quanto à oposição. Economistas, porém, propõem um adendo à fala do general. Além da autoridade estatal, a crise - que em uma semana consumiu 60 vidas - também está aproximando do abismo a economia do Egito.

As negociações entre o FMI e o Cairo estavam em fase final quando a violência voltou a explodir, marcando o segundo aniversário da revolta que derrubou Hosni Mubarak. Em novembro, o diálogo com o fundo já havia sido suspenso enquanto o presidente Mohamed Morsi aprovava uma nova Constituição, sob boicote de grupos laicos e cristãos. O plano em discussão é que o FMI deposite o quanto antes nos cofres egípcios US$4,8 bilhões, socorro que deve destravar outros US$14,5 bilhões prometidos por governos.

"A economia egípcia precisa de um milagre, não apenas de um empréstimo do FMI", escreveu esta semana na Bloomberg Samir Radwan, que foi ministro das Finanças logo após a queda de Mubarak. O desajuste macroeconômico do Egito, em si, já é perigoso, apontam analistas. Mas, com o governo imerso em uma crise de legitimidade, enquanto distúrbios tomam as ruas das principais cidades, o cenário torna-se catastrófico.

O déficit fiscal chegou a 11% do PIB e a dívida pública, a 85%. Investidores e turistas estrangeiros sumiram, as reservas que eram de US$ 32 bilhões quando caiu o ditador estão em menos de US$15 bilhões e, em 2012, o país entrou tecnicamente em recessão. Em dezembro, a agência Standard&Poor's rebaixou a nota do Egito para B- (a mesma da Grécia) e, em pouco mais de um mês, a libra egípcia perdeu 7,5% de seu valor ante o dólar.

Para uma economia extremamente dependente das importações - o Egito é, por exemplo, o maior comprador mundial de trigo, a base da alimentação no país -, as consequências sociais da desvalorização cambial podem ser dramáticas. Pior: um acordo com o FMI será condicionado a um amplo plano de austeridade fiscal, com cortes profundos nos subsídios do Estado à alimentação, energia e combustível.

"Esses cortes terão um preço: uma revolta social enorme. Mais da metade da população egípcia vive com menos de US$ 2 por dia e, portanto, é totalmente dependente dos subsídios", disse ao Estado Hani Sabra, especialista em Egito da consultoria Eurasia.

Pão e liberdade. Sabra duvida que o governo Morsi embarque em um acordo com o FMI antes das eleições legislativas, no fim de fevereiro - o Congresso eleito há um ano foi dissolvido pelos militares em julho. "O fundo é muito impopular no Egito e a oposição à Irmandade usaria o acordo como arma na disputa pelo Legislativo."

Passados dois anos da mudança de regime no Cairo, o lema dos manifestantes que derrubaram Mubarak - "pão, liberdade e justiça social" - parece cada vez mais distante. Sob a ditadura, 20% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Hoje o número é de 25% e, segundo um estudo do Banco Mundial, outros 22% estão em "situação de risco" e podem ser rebaixados caso a economia não melhore. Mais de um terço dos egípcios de 20 a 24 anos estão desempregados e o mercado informal toma cada vez mais espaço.

Para Paul Sullivan, que pesquisa as Forças Armadas do Egito na Universidade Georgetown, nos EUA, o comentário do general Sissi foi uma ordem "para acalmar as coisas". Os militares governaram o Cairo por décadas até o ano passado, mas agora tentam tomar distância da disputa partidária. Caiu o regime, mas os generais mantiveram seu obscuro império econômico - de 10% a 30% do PIB do Egito, dependendo das estimativas - e a palavra final sobre os dois principais elementos da política externa, os acordos de paz com Israel e a relação com Washington. O presidente não tem autoridade sobre o orçamento da Defesa, que está longe da tesoura do FMI.

"Até agora, o governo da Irmandade foi um enorme fracasso. Eles estão conduzindo o Egito ao abismo", diz Sullivan. A dança das cadeiras na cúpula do Executivo dificulta a formulação de uma estratégia coerente na negociação com o FMI, completa o analista. "Mas os militares voltaram aos quartéis. Cabe às autoridades civis governar."

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