Juan Ignacio Roncoroni/EFE
Juan Ignacio Roncoroni/EFE

Instabilidade política na Argentina acelera fuga de empresas

Saída de multinacionais ocorre depois de governo baixar norma que dificulta acesso ao dólar e remessas de lucro

Daniel Galvalizi, ESPECIAL PARA O ESTADÃO / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2020 | 05h00

BUENOS AIRES - O presidente da ArgentinaAlberto Fernández, vem encontrando dificuldades para tomar um rumo diferente de sua vice, Cristina Kirchner. A mistura entre o peronismo moderado de Fernández e o kirchnerismo radical de Cristina, somado à desaceleração econômica por conta da pandemia, vem causando a maior saída de empresas multinacionais da Argentina desde a crise de 2002.

O auge da fuga ocorreu entre agosto e setembro, depois que a Casa Rosada anunciou novas restrições à compra de dólares e à transferência de lucros para o exterior. A escassez de moeda forte no Banco Central, em razão do colapso das exportações e da queda do fluxo de turistas, impulsionou as medidas que assustaram as empresas de capital estrangeiro.

Os casos mais alarmantes foram os da Falabella, loja de departamento chilena – que inclui a CMR e a Sodimac –, da Latam, que não se retirou da Argentina, mas cancelou todas suas operações domésticas, e a da gigante americana Walmart, que foi comprada pelo ex-candidato a presidente Francisco De Narváez, uma espécie de Berlusconi argentino.

Outras multinacionais que deixaram a Argentina foram Wrangler, Nike, a companhia telefônica Brightstar, a farmacêutica Pierre Fabre, além das aéreas Air New Zealand, Qatar Airlines e Norwegian Air. No último semestre, todas elas já haviam informado que estavam encerrando suas atividades no país. Três empresas do setor automotivo informaram a migração das operações para o Brasil: Basf, Saint-Gobain e Axalta. 

Quem também está se despedindo da Argentina é a Danone, que deve deixar o país em 2021. Os ativos locais da gigante francesa devem ser comprados pela Arcor, uma das maiores empresas de alimentos de capital argentino, de acordo com fontes com acesso à gestão da multinacional.

O faturamento da Danone caiu 9,3% no terceiro trimestre e o CEO da empresa anunciou, nos últimos dias, uma “revisão” de seus negócios na Argentina para reorganizar suas marcas. Quando questionados, representantes da empresa responderam ao Estadão que “não sabem quando terão as conclusões” desta revisão, que pode durar até um ano, embora não tenham negado a possibilidade de entrar na lista de empresas que decidiram sair do país.

O caso da Danone é emblemático por se tratar de uma empresa de laticínios global e de a Argentina ser um país com perfil agroexportador e um dos maiores produtores de leite do mundo – em campanhas políticas, é comum ver os candidatos repetindo que o país deveria industrializar sua produção para se tornar “a França da América Latina”. 

Mas não são apenas as grandes empresas que sofrem com o colapso da confiança e da lucratividade na Argentina. De acordo com dados Administradora Federal de Ingressos Públicos (Afip), órgão que administra a arrecadação de tributos, 24 mil empresas fecharam as portas em 2020, sendo a grande maioria pequenas e médias.

Em outubro, a Confederação Argentina de Médias Empresas (Came) alertou que as pequenas e médias empresas estavam em “alerta vermelho” e calculava que cerca de 60 mil “já fecharam ou estão sob risco de encerrar suas atividades em razão do impacto da pandemia”.

O economista e diretor da consultoria Analytica, Ricardo Delgado, explicou ao Estadão que muitas das decisões de deixar o país têm a ver com “estratégias globais adotadas nas sedes das empresas”. Ao redefinir a ordem de prioridades, segundo ele, a “Argentina fica muito baixo no ranking”, não só por questões regulatórias, mas também em razão da decisão do Banco Central de restringir a transferência de moeda estrangeira para o exterior.

“Quando as operações normais entre fronteiras são limitadas, a Argentina fica em desvantagem com relação à concorrência com outras subsidiárias ao redor do mundo”, afirma. Além disso, outro elemento essencial é “a queda acentuada do consumo interno e a limitada capacidade de recuperação nos próximos anos, tanto em pesos argentinos como em dólares. “O barateamento da Argentina, em razão da desvalorização, é bom para produzir, mas ruim para consumir. Então, não há expectativa de boa rentabilidade no futuro.”

Delgado diz que os gestores das empresas tendem a compartilhar “visões negativas” de um governo kirchnerista, “porque o olhar para o passado influencia”. “Se a principal acionista do governo é Cristina, isso traz a lembrança das restrições à venda de dólar, da desapropriação da Repsol e dos problemas para importar”, disse. “Por isso, o medo do governo torna-se um problema macroeconômico.”

O economista lembra dois sinais ruins da Casa Rosada para o mercado. O primeiro foi a restrição à transferência de moeda. O outro foi o anúncio da expropriação da Vicentin, principal empresa exportadora de óleo e farelo de soja da Argentina, que corria risco de falência. 

Diante da oposição que o projeto sofreu, Fernández recuou, mas pagou um alto custo político. “Da mesma forma, e embora seja a maior saída de empresas desde 2002, a Argentina não está a caminho de ser a Venezuela, nem com as expropriações nem com a fuga em massa de multinacionais”, garante Delgado. 

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