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Instável coalizão jihadista

A cada dia que passa, percebemos melhor as dificuldades em que esbarra - e deverá esbarrar ainda mais - a "coalizão" formada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para conter e se possível erradicar os fanáticos do Estado Islâmico (EI), que instalaram um "califado" no norte do Iraque e da Síria.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2014 | 02h01

Sabemos que o presidente americano, preocupado em bloquear o avanço dos terroristas, deu a seus aviões a ordem de bombardear as colunas de combatentes do "califado" e de incendiar todos os poços de petróleo sírios e iraquianos que garantem às tropas do EI recursos financeiros consideráveis, matando, enquanto isso, alguns terroristas e talvez alguns civis.

Washington julga esses bombardeios eficazes, e de fato são. No entanto, tiveram também uma consequência lamentável: aproximaram duas facções terroristas islâmicas que ontem eram inimigas e hoje pretendem fazer "causa comum" contra o inimigo principal: o americano, e mais em geral o Ocidente.

A identidade do Daech agora é conhecida (sigla do EI em árabe). São terroristas bem treinados, numerosos, dotados de armamentos avançados, ricos, que anexaram, em alguns meses de batalhas, um vasto reino, ou melhor um vasto "califado", entre a Síria e o Iraque.

Em suma, os chefes e os homens do Daech tomaram para si a sucessão da Al-Qaeda, ou seja, do saudita Osama bin Laden, o homem que apavorou o mundo no dia 11 de setembro de 2001 abatendo as torres gêmeas de Nova York.

Por isso, a Al-Qaeda não desapareceu totalmente. Embora seu rival, o EI se distancie dela, ela subsiste, combate até hoje.

Em meio à guerra civil que já dura três anos na Síria, particularmente, uma organização invoca ainda Bin Laden, é a Frente Al-Nusra, que mata, saqueia e assassina seus oponentes.

Os homens do EI não gostam da concorrência da Al-Nusra no mal - podemos imaginar as sangrentas batalhas em que se opuseram, depois de 1917, os homens de Lenin e de Stalin aos de Trotski na cisão pós-Revolução Russa. Há alguns meses, a guerra se trava entre os bandos da Al-Nusra e os do Daech na Síria. Essa luta resultou, no decorrer dos últimos meses, em milhares de mortos.

Os bombardeios dos americanos tiveram esse efeito imediato: a Frente Al- Nusra os criticou. Quando os aviões americanos atacavam somente o Daech, a Al-Nusra os qualificou de "guerra que o país dos cowboys trava contra o Islã".

A Frente Al-Nusra acrescenta que recorrerá à represália no mundo inteiro contra todos os países integrantes da coalizão de Obama.

Recrutamento. Como se explica esta reviravolta da Frente? Inicialmente, pela solidariedade entre os homens do terror. Em seguida, pelo fato de pertencer ao mundo islâmico e pelo ódio que ambas as organizações nutrem pelo Ocidente.

O porta-voz da Al-Nusra escreveu: "Os americanos e seus aliados cometeram um ato horrível que os coloca na lista dos alvos das forças jihadistas no mundo inteiro". Em resumo, a Al-Nusra explica que a causa da jihad (a guerra santa) é mais forte do que as diferenças que separam a Al-Qaeda do EI.

E isso não é tudo. A Frente Al-Nusra está perdendo rapidamente força há alguns meses, desde que surgiram o EI e seu "califado".

O "califado" acende os desejos, as paixões, as loucuras de todos os aprendizes jihadistas.

A ideia atrai muitos jovens revoltados que poderiam ter ingressado nas fileiras da Al-Qaeda ou, antes, na Frente Al-Nusra, na Síria. É por isso que a Al-Nusra acredita que atacando diretamente os americanos e seus aliados, contra os bombardeios americanos na Síria, pode recuperar sua imagem e seduzir de novo aqueles jovens que pretendem aderir à jihad ou alcançar o martírio em nome do Islã.

É nesse espírito que a Frente Al- Nusra, no mesmo comunicado, reservou suas ameaças mais violentas aos países árabes que participam dos ataques aéreos.

Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes, Jordânia e Bahrein são apresentados como "escravos do Ocidente" e acusando-os de terem se passado "para o lado da opressão e dos infiéis".

Poderá a Al-Qaeda recuperar algum prestígio prestando socorro ao seu outrora rival, o EI e o "califado"? É improvável. A magia que emana da ideia de califado é tal que poderá dominar por muito tempo ainda o campo do terror. / TRADUÇÃO DE ANA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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