EFE/EPA/Yuri Gripas
EFE/EPA/Yuri Gripas

Conheça o Trafalgar Group, instituto que 'previu' a vitória de Trump em 2016 e aposta nele de novo

Polêmica consultoria Trafalgar Group afirma ter acertado resultado em 2016, mas não revela suas pesquisas nem sua metodologia

Felipe Resk e Brenda Zacharias, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 08h00

Na contramão da maioria dos institutos americanos, a consultoria Trafalgar Group prevê vitória de Donald Trump contra o democrata Joe Biden na eleição desta semana. Conhecida por divulgar pesquisas mais amigáveis ao Partido Republicano, a empresa aponta que o atual presidente levaria vantagem em Estados-chave, como Flórida, Michigan e Pensilvânia, considerados decisivos no resultado da votação.

No site oficial, o Trafalgar Group afirma que teria acertado o sucesso de Trump nas eleições de 2016, quando praticamente todos os institutos indicavam Hillary Clinton, a candidata democrata, como a nova presidente dos Estados Unidos. Entre as pesquisas tradicionais, a exceção foi a da USC/Los Angeles Times, que previu o crescimento do republicano na reta final da campanha.

Em favor do Trafalgar, há duas publicações realizadas em 7 de novembro no Twitter - um dia antes, portanto, da eleição de 2016. Nelas, a empresa apontou vantagem de Trump sobre Hillary em Michigan e na Pensilvânia, onde a maioria dos institutos errou. Agora, mais uma vez, a consultoria calcula que o republicano está na frente de Biden nesses Estados, com margem de 48,3%-45,8% e 47,8%-45,9%, respectivamente.

Especializado em estatísticas, o site americano FiveThirtyEight atribui a Trafalgar nota C-, abaixo de institutos mais tradicionais. De 48 pesquisas analisadas, a consultoria teria acertado 75% e apresentado margem de erro de 5,6 pontos porcentuais, segundo a plataforma. Já os resultados tendem a ser 0,9 ponto mais favoráveis aos republicanos.

Coordenador do FiveThirtyEight, Nate Silver afirma que as pesquisas apresentadas pelo Trafalgar Group seriam "loucura". Ele destacou, por exemplo, que pelo instituto Trump ganharia 30% dos votos de filiados ao partido democrata em Michigan.

Com sede em Atlanta, na Geórgia, a consultoria é chefiada por Robert Cahaly, seu fundador. Na página oficial, ele se apresenta como especialista em análise de dados e diz já ter trabalhado apoiando campanhas do Partido Republicano, entre elas a de George W. Bush e do próprio Trump.

À imprensa americana, Cahaly tem defendido o resultado de suas pesquisas e se mostrado confiante de que os outros institutos é que vão errar a previsão. Segundo afirma, a empresa aplica um método para corrigir o chamado "viés de desejabilidade social", que basicamente consistiria em identificar eleitores que têm vergonha de declarar voto no atual presidente.

De acordo com a tese, os entrevistados podem se sentir acuados em apoiar Trump em público, pela maneira como o presidente é descrito na imprensa. Para diminuir a tensão, os questionários da Trafalgar teriam até nove perguntas e duram entre um e dois minutos, o que seria mais atraente para pessoas menos politizadas. Também podem ser conduzidos por ligações, mensagens de texto ou e-mails.

Segundo o Washington Post, a consultoria evita fazer perguntas espinhosas diretamente ao entrevistado. No lugar, questiona o que a "vizinhança" acha de determinado assunto e, com base na análise das respostas, corrige o cálculo da intenção de voto. "Quando você precisa saber o que as pessoas pensam sobre algo que não é agradável de falar, pergunte o que seus vizinhos pensam, porque elas vão te dar sua opinião verdadeira sem que você os julgue por isso", já declarou Cahaly, de acordo com o veículo americano. 

Em artigo publicado no portal Intelligencer, da revista New York, o analista político democrata Ed Kilgore defende que ainda não há evidência de que a tese do "eleitor tímido" seja real. "A base de Trump não se glorifica por ser 'politicamente incorreta' e por 'mandar nos liberais?'", escreveu. Para ele, o fator decisivo em 2016 não foi a timidez, mas a dúvida em quem votar. "Eles não estavam escondendo em quem pretendiam votar; a intenção só não tinha sido, de fato, consolidada".

Pesquisas tradicionais fizeram ajustes

O Washington Post também destaca que Cahaly corrobora com teorias conspiratórias. Em programa na Fox News, rede de televisão americana, ele chegou a dizer que Trump venceria na Pensilvânia mas que, se não fosse por ampla vantagem, ocorreria uma fraude eleitoral promovida por "eles" - supostamente, os adversários democratas. Não apresentou, contudo, quais seriam as evidências. 

O discurso é o mesmo adotado por Trump, que classifica de fake news todas as pesquisas que demonstram vantagem de Biden na corrida eleitoral. Recentemente, o presidente publicou no Twitter que estava na frente "com folga" nas consultas "que realmente importam". Também há expectativa de que, caso seja derrotado, o republicano leve a eleição para a Justiça.

Institutos tradicionais tiveram a credibilidade contestada principalmente após errarem o resultado de 2016. Embora tenham acertado a vantagem de Hillary a nível nacional, as pesquisas não foram capazes de prever que Trump ganharia mais da metade dos votos no Colégio Eleitoral, conforme estabelece o modelo eleitoral americano.

Segundo analistas, a maior dificuldade há quatro anos estava em identificar um eleitor "oculto": o produtor rural, de baixa renda e sem diploma universitário, que tendeu a votar em Trump. Também havia grande número de indecisos e de pessoas que declararam que não iriam comparecer às urnas, mas acabaram votando. Isso levou boa parte dos pesquisadores a revisar o peso de alguns critérios e ajustar a metodologia dos estudos para 2020.

"Acho que a gente está em uma situação bem diferente, embora em 2016 as pesquisas tenham acertado o resultado nacional e na maioria dos Estados, dentro da margem de erro", afirma Mauricio Moura, fundador do Ideia Big Data. "Agora, existe mais oferta de pesquisa a nível local, principalmente em Estados do meio-oeste."

Neste ano, a votação antecipada já indica participação recorde dos eleitores - comportamento que, segundo Moura, aumenta a aderência das pesquisas. Também estaria mais fácil identificar quem é adepto a Trump. "Como eles está no mandato há quatro anos, há mais indicadores para fazer a checagem do que em 2016. Existe, por exemplo, uma correlação grande em quem avalia bem o governo e quem vota nele."

Para o pesquisador, no entanto, a antecipação também pode ser o principal empecilho para os institutos acertarem as previsões. "A chance de não ter todos os votos apurados é enorme", diz. "Primeiro, há locais em que os votos não vão chegar até o deadline. Segundo, há uma questão de processo de apuração que a assinatura do envelope deve bater exatamente com a do registro. Outro problema grande é que, em Estados como o Texas, você tem distrito com uma só caixa para 4 milhões de votos."

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