AP Photo/Alexander Zemlianichenko (arquivo)
AP Photo/Alexander Zemlianichenko (arquivo)

Insurgente derrotado em 2001 retorna como provável próximo líder do Afeganistão

Abdul Ghani Baradar era amigo íntimo do fundador do grudo radical, Mohammad Omar

Kevin Sieff e Joshua Partlow/ The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 10h00

O homem que provavelmente será o próximo líder do Afeganistão entrou em Kandahar na terça-feira, escoltado por uma frota de SUVs brancos, coberto por fogos de artifício e saudado por milhares de afegãos, pelo menos alguns segurando granadas e lança-foguetes. Durante anos, os líderes políticos do Taleban foram fantasmas, estrategistas invisíveis de uma insurgência poderosa. Mas, agora, aqui estava o comboio que trazia Abdul Ghani Baradar.

Algumas pessoas na multidão aplaudiam. Muitas outras apenas observavam, paralisadas.

Baradar passara mais da metade de sua vida adulta como insurgente ou prisioneiro, até aí tão certo de sua derrota que preparara uma rendição formal diante da invasão americana após os ataques terroristas de 11 de setembro. Mas ele emergiu de seu comboio — sob um manto branco esvoaçante, com óculos de aros de metal e uma longa barba preta — como a força que derrotou os Estados Unidos e seus aliados.

Ninguém sabe exatamente quantos anos Baradar tem — esta é apenas uma das muitas perguntas abertas a seu respeito. Agora, talvez o mais urgente: como alguém que passou sua última década entre uma prisão paquistanesa e um hotel de luxo em Doha governará um país onde todas as estruturas do Estado evaporaram da noite para o dia?

Baradar era amigo íntimo do fundador do Taleban, Mohammad Omar. Ambos lutaram contra a invasão soviética do Afeganistão e ascenderam ao poder político após a retirada soviética. No final da década de 1990, Baradar foi governador do Taleban em várias províncias e era um dos líderes que presidiam um regime que exercia o poder por meio da repressão e da violência.

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E, no entanto, depois que o Taleban tomou Cabul nesta semana, Baradar divulgou uma declaração em vídeo, tirando os óculos e olhando para a câmera:

“Agora chegou a hora do teste”, disse ele. “Agora a questão é servir e proteger nosso povo e garantir seu futuro”.

Em 2001, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e começaram a bombardear a Al Qaeda e o Taleban, foi Baradar quem negociou a rendição do Taleban com Hamid Karzai, que logo seria empossado como presidente do país. O tenente-coronel aposentado Jason Amerine, então capitão das Forças Especiais americanas, lembrou-se de ter encontrado Karzai no Paquistão em novembro, enquanto falava com Baradar por um telefone via satélite.

“Foi uma conversa cordial. Não havia realmente nenhuma tensão”, lembrou Amerine. “Ouvindo o tom de voz, parecia que ele estava falando com algum conhecido. Não percebi que estava falando com um dos líderes do Taleban”.

Poucas semanas depois, Baradar enviaria uma força para tentar matar Karzai e seus homens. No entanto, no início de dezembro, sob pesado bombardeio americano, ele ofereceu sua rendição.

“Karzai estava basicamente trabalhando por meio de Baradar para discutir toda a rendição”, disse Amerine. “A sensação que tive foi de que o Taleban concordou em entregar Kandahar e o país a Karzai, mas eles não cumpririam. E Karzai entendeu isso. Foi: ‘Ok, é tudo seu. A batalha acabou. Pare de nos bombardear’. E aí eles começaram a fugir’.

Nos primeiros anos da guerra, quando o Taleban começou a se reagrupar, Baradar teria ficado particularmente furioso com um ataque aéreo americano que matou dezenas de pessoas no casamento de seus parentes em 2002, em sua província natal de Uruzgan, segundo um funcionário da ONU no Afeganistão, que falou sob condição de anonimato porque não estava autorizado a falar publicamente.

“Depois disso, ele fugiu para o Paquistão e começou a morar em Karachi”, disse a pessoa.

Em 2010, enquanto o governo Obama enviava dezenas de milhares de soldados para o Afeganistão, Baradar emergiu como um líder pragmático do esforço de guerra do Taleban. Uruzgan surgiu como uma das fissuras mais violentas do conflito. As bases militares fortificadas dos Estados Unidos, Austrália e Holanda ficaram sob fogo constante dos insurgentes.

Enquanto isso, Baradar vinha desenvolvendo conversas de bastidores com o governo Karzai, por meio das conexões tribais que compartilhava com o ex-presidente. Sua prisão em fevereiro de 2010, em uma operação conjunta da CIA com as forças paquistanesas em Karachi, foi vista como um esforço do Paquistão para interromper as negociações de paz.

Baradar passou anos na prisão paquistanesa antes de ser solto em 2018 — um período que só aumentou sua legitimidade política, disse Thomas Ruttig, ex-diplomata alemão e analista de longa data do Afeganistão.

“O Taleban geralmente é descrito como um fantoche do Paquistão, o que nunca foi o caso: eles dependem muito do país e o Paquistão tem influência sobre eles, mas o Taleban também é um ator autônomo”, disse Ruttig. “E acho que a experiência de Baradar nas prisões do Paquistão não fará dele alguém que seguirá as ordens do Paquistão”.

Depois que Baradar foi libertado da prisão a pedido de líderes americanos e afegãos, alguns de seus colegas do Taleban se perguntaram sobre seu estado mental, dadas as condições que ele provavelmente suportara, disse Bette Dam, uma especialista holandesa em Taleban.

Quando chegou ao Catar no ano passado para negociações sobre a divisão do poder no Afeganistão, ele falou baixo e ficou menos visível do que outros integrantes do Taleban. Sua longa barba tinha começado a ficar grisalha. E ele usava turbante e um shalwar kameez esvoaçante, um ponto de contraste com as turistas de biquíni no hotel de Doha, onde os negociadores se reuniram.

Ele adotou a linguagem da reconciliação, dizendo que o Taleban estava buscando “um sistema islâmico no qual todas as pessoas da nação possam participar sem discriminação e viver em harmonia umas com as outras em uma atmosfera de fraternidade”.

Mesmo com os ataques do Taleban continuando ao longo do processo de negociação, as autoridades americanas se convenceram da relevância de Baradar. Em novembro, ele posou para uma foto com o então secretário de Estado Mike Pompeo, em frente a cadeiras com armação dourada.

Ruttig disse que Baradar se revelou mais poderoso do que algumas pessoas esperavam ao longo dos anos e “desenvolveu e demonstrou compreensão política”.

“Eu diria que ele é uma espécie de contrapeso para as pessoas mais beligerantes do movimento do Taleban. E é bom ter alguém assim”, disse ele. “Parece que Baradar terá uma enorme influência no novo governo do Taleban e foi subestimado em seu papel”.

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Mas é impossível prever a forma como Baradar pode governar  e até mesmo sua capacidade de consolidar o poder em Cabul. Mesmo enquanto ele e outros líderes do Taleban articulavam uma visão mais liberal do Estado nos últimos dias, ressurgiram sinais das técnicas repressivas do Taleban.

Em algumas regiões do país, há relatos de escolas para meninas sendo fechadas. Também circularam histórias sobre o Taleban confiscando propriedades e atacando civis.

Baradar tentará impedir esses incidentes? E, se fizer isso, terá sucesso?

Não está nem claro onde ele vai morar.

Em Cabul, o Taleban assumiu o comando do espalhafatoso e multimilionário palácio presidencial que fundos americanos ajudaram a restaurar. Baradar, que já simbolizou a imagem de guerreiro ascético do Taleban, terá de decidir se dormirá ali, na antiga casa dos homens contra quem ele passou duas décadas guerreando. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Alejandra Ibarra Chaoul, do Washington Post na Cidade do México, colaborou com esta reportagem.

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