Scott Nelson/The New York Times
Scott Nelson/The New York Times

Insurgentes tomam cidades perto de Trípoli, principal reduto de Kadafi

Mercenários e parte do Exército ainda leal ao regime patrulham as ruas da capital para evitar a chegada dos rebeldes, que já controlam o leste do país

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Duas cidades a oeste de Trípoli, na Líbia, região que sustenta Muamar Kadafi no poder, caíram em mãos dos insurgentes nas últimas 36 horas. O levante se deu nas cidades de Zuara, a 140 quilômetros da capital, e Zauiyah, a 50 quilômetros, e derrubou dois pilares estratégicos da segurança do regime.

Além disso, a perda progressiva de poder do ditador nas cidades do país vem revelando a carnificina promovida pela polícia, Exército e mercenários: em Benghazi, mais de 2 mil pessoas podem ter sido assassinadas durante os protestos, segundo testemunhos de estrangeiros que deixaram o país.

A tomada de Zuara e Zauiyah pelos rebeldes foi confirmada na manhã de ontem, quando testemunhos de líbios, tunisianos e egípcios relataram uma batalha sangrenta na região. Só em Zauiyah, pelo menos 90 pessoas teriam sido mortas, segundo informou ao Estado um morador da cidade que deixou o país à tarde pela fronteira de Dehiba, 250 km ao sul. "As mortes são obra de mercenários pagos por Kadafi. Mas o oeste do país também está se libertando. Em breve, só restará Trípoli", garante o líbio, que pediu para não ter o nome divulgado.

Nos dois municípios, os "comitês populares", órgãos dirigentes do regime, teriam sido dissolvidos e o comando da polícia e das Forças Armadas teria desertado e se unido aos rebeldes. O avanço dos insurgentes no oeste aumenta a fragilidade do regime, que já havia perdido cidades do leste do país como Ajdabiya, a 847 quilômetros da capital, Tobruk e Benghazi, ambas a 1.000 quilômetros da capital. "Não há mais governo a leste de Trípoli. Queremos dominar todo o país até a sexta-feira da semana que vem", disse outro líbio ouvido em Dehiba.

Também ontem dois terminais petroleiros do país, em Ras Lanuf e Marsa el-Brega, situados no Golfo de Syrte, passaram ao controle dos rebeldes. Das duas plantas partem 1,5 milhão de barris de petróleo por dia, a maior parte da produção do país. O domínio das instalações de petróleo e gás é considerado fundamental para determinar a sorte do regime de Kadafi.

Trípoli, porém, segue sob o controle de militares e mercenários estrangeiros, segundo a agência Associated Press, Membros de grupos pró-Kadafi teriam invadido hospitais de Trípoli na terça e quarta-feiras e executado rebeldes feridos que recebiam atendimento. "Eles (militares e mercenários) levaram os cadáveres para fazê-los desaparecer", afirmou Slimane Bouchuiguir, secretário da Liga Líbia de Direitos Humanos.

O Comitê do Povo pela Segurança, outro órgão do regime exortou os opositores a abandonar as armas. Recompensas também foram oferecidas a quem oferecese informações sobre líderes das manifestações.

"Os que entregarem suas armas e se arrependerem serão isentados de processos judiciais", disse o comitê, em nota oficial. "O comitê apela aos cidadãos que informem sobre os que manipularam os jovens ou os corromperam com dinheiro, material ou pílulas alucinógenas."

Combinada à repressão, o regime oferece a perspectiva de mudanças. Saadi Kadafi, filho do ditador, afirmou ao jornal "Financial Times" que o regime passará por transformações, com seu pai no poder.

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