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Integração de refugiados por conflito com as Farc desafia Colômbia

Integração de refugiados por conflito com as Farc desafia Colômbia

Muitos dos 7 milhões de deslocados pelo conflito com as Farc não pretendem retornar a seus locais de origem

Nick Miroff, THE WASHINGTON POST

08 de setembro de 2016 | 05h00

No país com mais refugiados internos do mundo, não se veem deslocados e expulsos vivendo em tendas de campanha ou formando longas caravanas. Segundo as Nações Unidas, há na Colômbia 7 milhões de “pessoas deslocadas internamente” - mais que na Síria, Iraque ou qualquer outra zona de guerra. Forçadas a sair de suas fazendas e povoados, elas se mudaram para os limites das cidades, refugiando-se nas favelas superpovoadas e sem vegetação da periferia de Bogotá.

“A cada mudança, você tem de recomeçar tudo, e sem nada”, diz Isaac Valencia, de 33 anos, expulso pela primeira vez de casa ainda criança e novamente agora, já adulto, quando milicianos de um chefão da droga queimaram sua casa e tomaram suas terras.

Valencia espera pelo referendo de 2 de outubro no qual os colombianos responderão se aprovam ou rejeitam o acordo de paz assinado entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), com quem Bogotá travou o mais longo conflito da América Latina. O acordo promete levar a lei para a maior parte dos ultraviolentos limites da zona rural do país, de onde tantos fugiram do fogo cruzado entre rebeldes comunistas, tropas governistas, milícias de extrema direita e barões da cocaína.

Com a paz, o governo pretende incrementar significativamente programas para ajudar as vítimas a recuperar suas terras ou ganhar novas propriedades em outros lugares. No entanto, resolver a crise dos refugiados promete ser um longo e espinhoso processo.

Durante o meio século de guerra civil, moradores da zona rural foram para as cidades fugindo de bombardeios, minas terrestres, massacres, sequestros, ameaças de morte e usurpação de terras. Eles veem a paz com as Farc como solução para uma das fontes de violência, mas sabem que muitas regiões continuam ameaçadas por outros grupos armados. E também não confiam no governo para protegê-los.

Valencia, que mora sozinho num barraco em um morro de Soacha, sem água corrente e com teto de zinco, quer voltar para seu sítio, mas com garantias de que não será atacado de novo. “Se fizerem tudo o que dizem que farão sob o acordo de paz, serei o primeiro a preparar a mudança”, afirma. “Mas, até que isso aconteça, daqui não saio.”

Cerca de 15% da população colombiana foi deslocada. O país foi tirado do rumo pela guerra, com sua economia emperrada e seu potencial de desenvolvimento, sabotado pela luta. “Para os deslocados e outros marcados com as piores cicatrizes da guerra, o acordo de paz é um começo, não o fim”, diz Alan Jara, diretor da agência governamental responsável pelos refugiados. “Eles querem deixar para trás o que aconteceu e querem saber a verdade”, afirma Jara. 

O acordo de paz promete devolver aos refugiados propriedades perdidas ou dar-lhes terras aráveis em outras partes do país, com mais segurança. Refugiados também terão assistência financeira e técnica para garantir que as propriedades sejam economicamente viáveis.

A realidade que a Colômbia terá de encarar, porém, é que muitos refugiados continuarão nas cidades”, diz Jara. “Alguns mais velhos podem querer voltar por saudade dos lugares que deixaram. Mas, quando retornarem, vão ver que esses lugares não existem mais.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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